quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Românticos de raiz

É gozado observar como certas opiniões dominam mentes sem serem realmente processadas. Um inventa a idéia, repassa, o outro absorve e nem contesta. Na música, por exemplo. Um dia inventaram que canção sertaneja não era mais um relato sobre a vida simples do homem do campo. Os cantores apertaram a calça de couro até virar adesivo, subiram em botas com salto, soltaram gritinhos desafinados e, num passe de mágica, viraram “românticos”. Os roqueiros? Esses sempre foram os porcos sujos do meio musical. Mesmo falando de um lindo amor.

Não faz muito tempo que comecei a ouvir Ramones com freqüência. Eu conhecia de “ouvir falar” – mas não comprava discos dos cabeludos. Eles cantavam sobre cemitérios, faz favor... Nossa, quanta perda de tempo foi esse pensamento! Há uns meses, ganhei um CD com 25 músicas dos rapazes americanos. Posso dizer, agora, que esses sim falam ao coração.

Zezé di Camargo e seu irmão bochechudo, Chitãozinho e o parceiro... todos podem esganiçar o gogó à vontade – a mim, não enganam. Como todas as duplas sertanejas mais recentes, fazem pose de conquistadores e são tratados como arautos da conquista afetiva. Esmiuçando as letras, eles falam mesmo é de sacanagem. De baile onde há um tal de “mexe-mexe” e sobre “fios de cabelos grudados no suor”. Argh! Muita informação, vai?

Ainda assim, levaram a tarja de cantar sobre romance. Tudo isso acontece enquanto Joey Ramone e seu bando falam há tempos que “she’s a sensation”, “I tell you I love you” e “I met her at the Burger King/ We fell in love by the soda machine”...

É tão pueril e apaixonado que chega a dar dó! Ah, mas eles eram rapazes de cara estranha, que se vestiam de preto e tinham cabeleira desgrenhada. Adoradores do capeta, isso sim! Não é o que muitos pensam?

No fim das contas, imagem é mesmo tudo. Se sua banda usa guitarras e bateria feroz, é “pauleira”. Se o grupo é formado por dois sujeitos com penteado escovinha, corrente dourada no pescoço, camisa e cinto, só pode ser “romântico”. Mesmo que diga coisas como “entre tapas e beijos/ É ódio, é desejo, é sonho, é ternura/ Um casal que se ama até mesmo na cama provoca loucuras”. Tem áudio-pornô de qualidade mais safada?

Ninguém ouve de fato a cantoria para decidir quem são os defensores do amor pleno. De todas as músicas que conheço do Ramones, 80% fala sobre a garota amada ou rock. É tão adolescente e tão adorável que hoje já imagino: a gangue devia dormir com pijama do Homem-Aranha e brincar de Gato Mia nos quartos de hotel.

Se você conhece alguém que detesta roqueiros porque eles não são limpinhos e amorosos, mostre este trecho de letra: “Hey little girl, I wanna be your boyfriend/ Sweet little girl, I wanna be your boyfriend/ Do you love me babe? What do you say?”.

Abra os horizontes da sua cobaia. Diga a ela que não se trata de uma música entoada por Rick Martin. Não, também não é Frank Sinatra. Tampouco é Fábio Jr. cantando no idioma bretão. É Ramones! Não é que caras desalinhados gostam de pedir meninas em namoro? Surpresa total, quase um choque.

Tudo bem: em algum momento tanto os Ramones quanto outros roqueiros dizem que querem ser intoxicados, que chutam esse ou aquele traseiro e coisas assim. Santos não são, eu compreendo. Mas os brutos também amam, como insinuava aquela novela ruim. E como amam... Ainda que cantem isso por trás de uma jaqueta puída, e não de um jeans colado no corpo.

Ramones.jpg
Com estes eu iria até ao Pet Cemetery...

ZezeLuciano.jpg

... já estes eu enterraria por lá!

Fla Wonka às 02:28 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold