terça-feira, 31 de agosto de 2004

Fechada por motivo de saúde

São mais de 17:40 da tarde e cá estou, de chinelos e meia, cabelo desgrenhado e um enorme bigode de suco de mamão. Porque tamanha decadência? Simples: estou doente. Uma dor-de-garganta de responsa me atormenta desde domingo à noite. E eu, que achava legal ficar doente...

Acho que mudei de idéia. Podia ser legal ficar dodói quando a gente era pequena, e a mamãe cuidava de tudo – dos mimos à sopinha. Eu podia passar a tarde assistindo a desenhos. Se eu quisesse chocolate, um conjunto novo de canetinhas ou o livro mais recente do Ziraldo, era só ligar para o papai.

Agora, não parece haver muita gente disposta a ficar me mimando até sarar. O namorido tem de trabalhar e, subtraído da população dessa casa, resta apenas eu. E fico aqui, me arrastando do sofá para a cama, da cama para o sofá, do sofá para o fogão. Isso porque preciso fazer canjão, daqueles de envelope, o que tem me mantido viva nessas últimas 48 horas – é só o que consigo engolir.

E quando a gente não consegue comer nada, seja por conta de qualquer doença, começa a dar uma fome avassaladora: num minuto, minha boca enche d’água ao pensar em harumakis, aqueles pasteizinhos chineses. Noutro, sonho com um enorme filé grelhado e salada de alface com croutons. E uma pizza de massa bem fininha e com a mussarela borbulhando em cima, então? Ai, Jesus.

Disposição para ao menos fazer uma deliciosa e nutritiva sopa de capeleti? Nem. Disposição para responder os e-mails, espiar e participar do Fórum, tocar as divertidas matérias freelance que peguei? Pfff. Para falar a verdade, caros, tive de reunir muita coragem para me sentar aqui e escrever minha contribuição de hoje. Tagarela convicta que sou, mal estou podendo falar. Até atender o telefone e tecer uma sempre animada conversa com as comparsas está difícil.

Ok, eu ainda achava que seria legal ficar doente. Eu senti que a garganta estava pegando; achei por bem traçar um milk shake domingo à noite e deu no que deu. O problema é que estar de molho pode ser bacana só no primeiro dia. Mas 24 horas é o limite para se alimentar só de batata e canjão e tomar mamão batido no liquidificador (daí o bigode).

Ainda por cima, quando estou doente, eu tenho a incômoda impressão de que nunca vou sarar; de que sempre estive assim e sempre vou permanecer assim. É a mesma sensação que alimento quando chove por dois ou três dias seguidos: me parece que o céu sempre foi cinza e sempre haverá de ser.

Mas tudo bem. Vou esperar sarar, continuar tomando o remedinho e ligar para o namorido trazer alguma comida de consistência molenga que não seja canjão (nem batatas). Aproveitarei a pausa forçada para repor energias – talvez seja mesmo uma chamada do meu pobre corpinho para diminuir um pouquim o ritmo. E, assim que estiver livre dessa inflamação, vou correr numa churrascaria. Ou no restaurante chinês. Ou na pizzaria. Enfim.


Clara McFly às 06:08 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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· Vivi Griswold