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Somos todos bagagem? Souberam que eu estive de férias? Ganhei habeas corpus do Garotas por uma semana e me mandei feito um raio para curtir recesso mental! Com os dias em aberto, saquei daquele livrinho verde cedido pela Polícia Federal, arrumei uma mala de tamanho médio, paguei os olhos da cara e me mandei mundo afora. De avião. Por conta do último item, sou capaz de sentir dor ainda agora, se me mover muito rápido... O pau-de-arara alado não tem o mesmo charme de antes. Sou fã confessa de Alberto Santos-Dumont, brasileiro e Pai da Aviação. Para mim, aquele homem pequerrucho, criativo e atormentado não poderia ter feito melhor uso de sua vida (tá bem... podia não ter se enforcado com a gravata, que esse não foi um grand finale, mas cada um com seus fantasmas). Inventor do avião SIM – os Irmãos Wright que me perdoem, mas preciso de provas para acreditar em vôos inaugurais –, ele deu asas ao povo. Se hoje podemos chegar a outro continente em algumas horas, e não em meses de navio, devemos isso ao Alberto e a todos os inventores que pensaram em ganhar os céus. Aposto, porém, que nenhum desses gênios agüentaria o modelo atual de viagem aérea padrão. A não ser que tivessem recebido muita bufunfa por seus inventos e pudessem adquirir jato particular, eles passariam os mesmos maus-bocados que eu ao me alojar nas poltronas da Varig. Conforto? Sossego? Dignidade? Só seu eu fosse uma anã surda e com poderes paranormais. Na ida, pedi à gentil mocinha do balcão um lugar mais na frente – onde não tem tanto barulho e o espaço da saída de emergência é suficiente para humanos com duas pernas. Curioso... muita gente teve a mesma idéia. Com o mesmo 14L que eu, estavam outras duas pessoas. Devido à lotação do vôo e à cara de “posso-chorar-a-qualquer-momento” que sei fazer, fui convidada a me mudar para uma certa Classe Executiva. Conhecem? Eu não conhecia não. Foi só na ida, mas serviu muito bem para comparar com o drama da volta. De princípio, a área parece estar no mesmo avião que o campo de concentração chamado Classe Econômica. Mas que nada. Ali, as poltronas têm o dobro do tamanho e acomodam até um organismo de 1,73 m como o meu. Quando o banco reclina, eu nem sinto o joelho do cidadão de trás na minha nuca, ó que coisa! Também dá para levantar sem meter a cachola no bagageiro e circular pelo corredor sem andar de lado, feito caranguejo. E os comissários de bordo, então? Educados, sorridentes, amáveis. Os da “turma do fundão” mais parecem cães da SS, a polícia nazista. Você pede um copo d’água a um desses e pode virar estátua por anos devido ao olhar petrificante. Na Executiva, pede-se água e ganha-se copo em segundos! Geladinho! Com canudo e guardanapo! Isso é que é vida... E é só o começo dela. No jantar, tem cardápio para escolher os acepipes pretendidos – com entrada, prato principal e sobremesa. Nem em casa tenho tanta fartura, vixe. Depois o moço mostra onde é sua tv particular, alojada no braço da cadeirona, e é possível assistir ao filme que quiser, independente do que escolhem os demais passageiros abonados. Tudo produção recente, nada de “Tubarão 12” ou “Um Verão do Barulho Muito Louco da Pesada”. E pensar que o pessoal da econômica recebe aquela lavagem para jantar... O pão é duro, a manteiga é mole. A comida, seja carne, frango, peixe ou massa, tem gosto de corrimão e consistência de pneu velho. Pode-se beber vinho, é verdade, e tentar esquecer que não há espaço para os dois pés tocarem o chão ao mesmo tempo. Mas com um copinho único da bebida e a grosseria da moça que oferece o trago, é mais fácil render só dor de cabeça. A rigor, a diferença entre viajar na Classe Econômica e na Executiva não está no espaço nanico, na ração safada e no tratamento subumano da primeira em relação à segunda. Está nos US$ 1.500 a mais que a segunda cobra em relação à primeira. Em miúdos? Quem tem dinheiro sobrando, vive literalmente no céu; quem não tem, passa algumas horas testando os limites do corpo, tentando achar um meio de sair dali inteiro. Para amenizar o chilique coletivo, a companhia aérea usa pitadas de bom humor. Para começo, eles fazem filmes sobre a segurança a bordo, ensinando brincadeiras divertidíssimas como usar máscaras de ar engraçadas, inflar coletes salva-vidas, apanhar assentos flutuantes e, quiçá, deslizar por um escorregador gigante e amarelo que nos tirará da aeronave em caso de pouso na água! Também mostram exercícios para melhorar o conforto ao viajar. Pena que é tudo besteira... Isso é só para evitar dizer “se tivermos problemas, o avião vai se tornar uma grande bola de fogo e morreremos todos” ou “o espaço aqui é tão miúdo que podemos ter trombose em questão de horas”. A realidade é chata, não? Podiam ao menos disponibilizar o tal escorregador de borracha no desembarque – assim levaríamos menos de 40 minutos para o processo e nem teríamos os pés esmagados por senhoras com malas de mão do tamanho de uma caixa d’água predial. Quando eu era pequenina, meu pai viajava muito pelo país todo. Na volta, trazia a malinha da refeição com geléias, sucos e talheres – e eu ficava imaginando como seria maravilhoso viver a experiência de cruzar as nuvens a bordo daquele passarinho metálico tão grande e vistoso. Crescer tem coisas ruins... Passados todos esses anos, já não me sinto como um pássaro ou Santos-Dumont dentro do avião, mas como a minha mala de tamanho médio.
Ele se enforcou porque seu invento foi usado na guerra... Isso porque nem chegou a ver o que servem no jantar da Varig hoje! |
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