quinta-feira, 26 de agosto de 2004

E depois...

Cantigas de roda sempre me deprimiram. Não tanto pelo conteúdo das letras – que, cá entre nós, nem parecem ter sido feitas ao inocente público infantil –, mas pelos finais abruptos. Talvez, originalmente, cada uma das musiquinhas contava com um desfecho próprio que acabou se perdendo no tempo. Ou, vai ver, elas eram assim mesmo – sem encerramento, muito menos feliz.

Atirei o Pau no Gato, por exemplo. Nem preciso dizer que sou uma militante ferrenha da extinção dessa canção tão abominável para o universo das crianças. Porém, tudo seria diferente se soubéssemos o que aconteceu com o espírito de porco que tentou maltratar o bichano, com a bocó da dona Chica e com o animalzinho assustado.

Digamos que o Zé Mané, depois de ouvir Ivete Sangalo dando trela para a crueldade contra gatos no horário nobre da Rede Globo, quis atirar um pedaço de pau no felino vira-lata. Após errar a primeira tentativa, ele tentou tomar distância para o lance e... acabou caindo no barranco. Teve as duas pernas quebradas e jurou nunca mais repetir o ato. Dona Chica, que não fez nada para ajudar, continuou com sua vidinha de olhar passivamente as pessoas na rua e morreu solteira e intocada. Já o gato foi adotado por uma família carinhosa e hoje se esbalda com comida e afagos.

Gostou da idéia? Pois aí vão outros finais alternativos às cantigas de roda!

A Barata
Tá certo que o inseto não deveria sair por aí contando vantagem sobre uma coisa que não tem, como as sete saias de filó. Mas não julguemos a pobre: enquanto joaninhas são belas e abelhas são nobres, a barata é... nojenta. O que ela não esperava era que sua mentirinha leve caísse por terra. Humilhada, pagou uma gangue de traças devoradoras para roer todas as roupas de suas inimigas. No reino dos insetos pelados, quem tem saia é rainha – ainda que apenas uma.

Dona Aranha
O aracnídeo desavisado tentava diariamente subir pela parede. Quando fazia sol, ela conseguia chegar até o telhado, onde tinha um ninho caprichado, cheio de toalhas de crochê. Quando chovia, porém, os pingos sempre a derrubavam e ela ficava sem abrigo. Cansada de ficar a mercê do clima, Dona Aranha juntou o troco da padaria, comprou um radinho de pilha e resolveu só colocar as oito patinhas peludas para fora da porta caso a previsão do tempo lhe fosse favorável.

O Cravo e a Rosa
O Cravo, metido a machão, brigou com a Rosa debaixo da sacada, querendo saber o que o Dente de Leão estava fazendo na casa dela minutos antes. Rosa, cansada do ciúmes doentio, tentou terminar a relação, dizendo que o Dente tinha um cabo bem mais avantajado. O Cravo perdeu a cabeça e despedaçou a namorada. Foi preso em flagrante e levado a julgamento. Hoje ele cumpre pena perpétua na Penitenciária de Segurança Máxima de Castle Rock, Colorado, sem direito à condicional.

Indiozinhos
Era para ser apenas um. Mas sabe como é: a tribo é mais unida que panelinha da terceira série. Logo um passageiro virou dois, que viraram três e assim por diante – até somarem dez. E olha que o último era bem gorducho. Enquanto navegavam pelo rio abaixo, um jacaré tentou virar o pequeno bote. Os indiozinhos se esforçaram tanto para desviar o animal faminto que nem perceberam a cachoeira se aproximando. Todos viraram panqueca – e o jacaré, esperto, nem precisou mastigar.

Se essa rua fosse minha
A intérprete da triste canção fazia planos de pavimentar uma rua com pedrinhas de brilhante só para sua cara-metade passar. Muito bonito – mas o homem, conhecido figurão suburbano, cantava todas as menininhas da gafieira enquanto sua inocente namorada lhe fazia juras de amor. Quando a incauta descobriu, foi a uma cartomante, pediu uma dica no jogo do bicho e ganhou. Com a grana, comprou um anel de brilhante para si mesma e descolou um garotão 10 anos mais novo.

Boi da cara preta
Após assistir ao programa eleitoral gratuito, a menina que tinha medo de careta viu que existe coisa muito pior no mundo. Só de olhar para o semblante de Paulo Maluf, a fobia foi curada instantaneamente. Essa obra também foi Maluf que fez. Após todos os anos de ameaça na hora de dormir, a moça acabou rompendo completamente os laços com a mãe. Quanto ao boi da cara preta, bem, aquele terminou seus dias na grelha de um churrasco de confraternização, no final do ano passado.

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Esse já não pega mais ninguém
Vivi Griswold às 11:04 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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