terça-feira, 24 de agosto de 2004

Não se mexa!

Assim como Vivi, eu nunca quebrei um só ossinho do corpo. Tampouco levei pontos – a não ser que contem aqueles de extração de dente. Aí, levei quatro; um para cada pobre canino que me foi extirpado. O ortodontista dizia que eu tinha muito dente para pouca boca e mandou os quatro para as cucuias. Assim, me tornei uma pessoa com 28 dentes – de maneira que vocês podem confiar em mim se tomarmos como verdade a canção dos Titãs que dizia “não confie em ninguém com 32 dentes”. Enfim.

Para mim, sempre foi uma grande frustração não ter portado uma vezinha sequer um belo molde branquelo e cheio de espaço para assinaturas dos amigos. Quando a gente é pequeno, tem mesmo uma porção de idéias estúpidas – como querer quebrar o braço, usar óculos e aparelho (eu enfiava arames nos dentes para fingir que usava). Os dois últimos itens acabei tendo de “instalar”: meu sorriso foi metalizado dos 11 aos 18 anos e continuo precisada de lentes (de vidro ou contato) se quiser levantar da cama pela manhã e não bater contra o guarda-roupa, por exemplo.

Mas continuo virgem do gesso. Se bem que, depois de acompanhar meu irmão no hospital – e ele foi apenas tirar uma simples tala, espécie de prima pobre do gesso – acho que mudei de idéia. O garoto ficou com aquilo no pé por míseros três dias – e vocês não imaginam o estrago que fez. Ainda por cima, João teve a moral de, ao contrário das recomendações médicas, coçar-se com uma régua. E um pedaço do inofensivo instrumento escolar quebrou lá dentro. Foi uma coisa linda de se ver...

Outro grande problema para mim seria andar de muletas. Com a parca silhueta de 42 quilos desde os 17 anos, me acostumei demais à exata medida. Dessa maneira, qualquer adendo nos meus contornos me faz causar tremendos desastres: se saio com uma blusa mais grossa nos dias frios, sou capaz de trombar em várias coisas devido aos centímetros extras não computados pelo meu cérebro.

Além do mais, depois de ler com atenção o cartaz de recomendações pregado à parede do hospital, percebi que poderia sofrer da síndrome dos sintomas adiantados. É assim: sempre que tenho de tomar um remédio, leio toda a bula. Ao chegar nas reações adversas, começo a senti-las todas – mesmo que o comprimido ainda esteja na minha mão. Então, se eu engessar, vou começar a achar que não estou sentindo mais os dedinhos do pé ou coisa parecida.

É. Parece que as assinaturas dos amigos não compensariam a mão-de-obra que deve ser ficar engessado. Claro que, se um dia eu me deparar com esse pequeno inconveniente, mudo de idéia e começo a ver o lado bom da coisa, como ser paparicada e... er, bem, deixar meus amigos rabiscarem o gesso. Os ossos podem fraquejar, mas a Pollyana que vive em mim é mesmo forte.


Clara McFly às 06:25 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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