terça-feira, 24 de agosto de 2004

Nhanholando

O verbo "nhanholar" não consta dos dicionários – mas com certeza consta de sua infância. Nhanhola é aquele momento de um soninho bom sem vontade de dormir, misturado com preguiça e manha. Quando eu saía do banho, colocava o pijama limpo e ia para o sofá assistir televisão antes da janta... Ah! Eis o horário de ouro do qual sinto falta.

Normalmente, nós não estávamos sozinhos no ato. Cada criança costumava ter um companheiro de nhanhola. O meu era o polegar direito, que eu sugava e sugava até ele ficar com o aspecto de uma ameixa seca. Chupei o dedo desde que nasci e continuei com o hábito até uns bons 10 anos de idade. Como era relaxante e viciante. Tanto que minha arcada dentária não me deixa mentir.

Meus irmãos também tiveram vícios na hora de nhanholar. Beto não largava a sua pupu (chupeta no linguajar tati-bitati). Ela era azul e cheirava a cangote de velho. Mesmo assim, o pequeno ruivo morria de amores pelo objeto e os dois eram inseparáveis. A pupu podia cair na terra: ele ia atrás e enfiava-a na boca sem pestanejar.

Já Ana me acompanhou na chupação de dedo. Porém, ao invés de utilizar o polegar como todas as crianças normais, ela gostava mesmo dos dedos indicador e médio. Vai entender o que se passa na cabecinha de um bebê, certo? Aparentemente, a dupla era anatômica e o gosto parecia ser bom – uma vez que Ana fez uso dela até criar um pequeno calo em cada dedinho rechonchudo.

Outras crianças costumam buscar objetos diversos para a hora da nhanhola. Travesseiros são sempre os campeões. Ou naninhas, como eu costumava chamar. Elas eram almofadas bem baixas e também contavam com um cheiro não muito agradável (uma mistura de suor, lágrimas, baba, leite e queijo polenghi). Também costumavam ser sujismundas, já que uma verdadeira naninha não poderia jamais ser lavada, para o desespero das mães. Lavá-las era dar adeus à graça. E olá ao berreiro.

Bichos de pelúcia eram como sapatos novos: precisavam ser amaciados. Ursos para nhanholar não deveriam ter aparência nova e limpa. Ser encardido e puído era a regra básica para qualquer companheiro daquela hora. Porque todos os bichos possuem o mesmo cheiro quando saem da loja – são os donos os responsáveis por imprimir um aroma próprio durante o uso.

Meu primo tinha um Petutinho chamado de, claro, Encardido. Quanto mais acabado, mais ele gostava. Quando o brinquedo perdeu os olhos foi a glória. No final de sua vida, Encardido já não mais lembrava um animal de qualquer espécie – após tantos anos de nhanhola braba, ele foi redimido a um pedaço de pelúcia gasta, áspera e desbotada.

Um outro primo, por sua vez, era gamado em uma galinha de pano. Bem, não na galinha... Mas na etiqueta da galinha. Sim, ele era viciado naqueles retângulos que a maioria de nós retira ao usar uma roupa. Tanto que minha tia costurou um monte delas em uma fralda para ele... nhanholar. Com uma mão, ele chupava o dedo. Com outra, ficava passando a etiqueta pra lá e pra cá no nariz. Por horas a fio.

Falando em fralda, não podemos esquecer do querido paninho. Poderia ser também um cobertor. Bastava seguir o manual da nanhola: 1) ter cheiro único, 2) ser sujinho e 3) ser aconchegante. O item dois, aqui, ganhava destaque, uma vez que o bebê andava de um lado para o outro da casa arrastando o paninho por pisos, assoalhos, gramados e o que mais aparecesse na frente.

Alguma passagem deste texto lhe soou familiar? Então é porque você também já nhanholou um dia.

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O embaixador da nanhola
Vivi Griswold às 12:03 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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