quinta-feira, 19 de agosto de 2004

Datena, me poupe!

Talvez por eu ter sido sempre a última a ser escolhida na divisão de time. Talvez por eu preferir biblioteca à quadra, ou sapato a tênis. Talvez por eu nunca ter me enfiado em um short de lycra na vida. Talvez por eu ser magrela por natureza. Talvez por eu ter horror de suor. Seja qual for o motivo que me levou a ele, o meu pensamento é apenas um: não gosto de esportes. Nem de praticar, nem de assistir.

Acontece que, de tempos em tempos, sou tomada pelo espírito esportivo – confortavelmente sentada no meu sofá, é claro. E com essas Olimpíadas, não poderia ser diferente: estou assistindo até jogo de botão, se este fizer parte do cronograma de Atenas e contar com algum time verde-e-amarelo. E a cada partida que passa, mais eu me lembro do motivo que me levou a ter desgosto por transmissões do gênero. Os malditos narradores!

Eu achava que o Galvão Bueno era o pior de sua espécie. Aquele bufão que só faz comentário óbvio e torce ao invés de narrar o que vê – bem parecido com um parente meu. Aliás, tio Sérgio daria um ótimo comentarista esportivo, se o requisito é ser parcial e sofredor, xingar o juiz e rogar praga no time adversário. É igualzinho. Só não ganha por isso.

Mas, para a minha sorte, faz alguns anos que eu não escuto o desagradável timbre de voz do sêo Bueno. De futebol e fórmula 1, nem chego perto – então estou praticamente livre de cruzar com o sujeito enquanto zapeio pela tevê. Tudo azul? Que nada! Descobri que há sim algo pior que o Galvão. O Datena.

Quem aí acompanhou os dois primeiros jogos de voleibol masculino do Brasil conhece a dor. Leitor querido, o que foi aquilo? Minhas orelhas começam a latejar só de lembrar a quantidade de asneiras que saiu daquela boca, tão acostumada a descrever cenas sanguinolentas em programas policiais.

Eu espero sinceramente que a Ana Moser, a pobre alma que divide o microfone com o cidadão, esteja ganhando um cachê muito gordo da Bandeirantes. A ex-jogadora tem de agüentar Datena a chamando a cada instante de “Ana Beatriz Moser”. Fala sério, não parece mãe dando bronca? Muito chato. Mas fica pior: quando não solta o chamamento duplo, ele se refere a ela como “monstro sagrado do esporte nacional”. É puxa-saco ainda, o pulha!

Sorte nossa que Ana é tão boa de cortada fora das quadras quanto dentro. Em várias ocasiões, a atleta deu uma resposta seca e puxou o falastrão do mundo de faz-de-conta em que vive. Por exemplo: não sei de onde Datena resolveu dizer que “seria gozado” se Giovanni tivesse pego uma bola. Ela respondeu que não havia nada de “gozado” no erro do jogador brasileiro. Uuuuh. Um a zero para a Ana Beatriz, o monstro sagrado.

Deve haver uma regra também quanto aos decibéis. Quanto mais alto, melhor. O Datena grita tanto, mas tanto, que eu só fico imaginando aquelas bochechas vermelhas e todas as veias da cara saltando para fora. Na mesma lista, existe um tópico que versa sobre o silêncio. Não pode existir um intervalo de mais de 5 segundos sem o narrador dizer alguma coisa.

É nessa que o cara acaba soltando qualquer coisa sem pensar. Datena, é claro, nos brindou com diversas frases duvidosas. Em uma ocasião, ele disse, com todas as letras, que “Giba nunca amarela quando chega no pau”. E o coitado do jogador ali, suando a camisa, tentando fazer bonito, completamente indefeso a esse tipo de comentário construtivo.

Datena costuma ainda dizer que colabora com a vitória do Brasil. A cada erro de saque do adversário, o estrupício comemora dizendo que ELE estava secando. Ah, tá. A força do pensamento tem um poder indescritível. Aliás, vou começar agora a minha mentalização antinarrador. Quem sabe não funciona, hein? Ohmmmmm...

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Saúde, mala
Vivi Griswold às 12:20 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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