quarta-feira, 18 de agosto de 2004

Eu ainda amo Lucy!

Humor televisivo é capaz de ser tolo, previsível e ordinário – como nestes “Zorra Total”, “A Praça é Nossa” etc. Nesse tipo de programa chulo, mulher é quase sempre escada. E uma escada que usa saia curta, salto agulha e repete estupidamente bordões infelizes. Mas nem sempre foi assim para as garotas. Uma delas, há muitos anos, foi considerada a mais engraçada das figuras femininas da tv. Eu e o mundo parávamos para ver Lucille Ball.

Não tinha mais do que sete anos quando a vovó Ondina me apresentou ao “I Love Lucy”. Claro, ela já conhecia muito bem. O programa nasceu em 1951 e durou até 1957. Depois ainda rendeu filhotes, e Lucille Ball ficou no ar por vários anos, com “The Lucy Show”, “Here’s Lucy” etc, mudando o elenco de apoio e sendo reprisado até nos anos 80 pela Record (dos bons tempos). Aquela senhora hilária era incansável. E ninguém ficava melhor com torta cenográfica na cara.

Lucy é minha referência quando se fala em humor. Nunca precisou ser grosseira ou despudorada. Tudo bem, tudo bem... De vez em quanto ela levantava a saia – mas só se fosse mostrar calçolas de camponesa com estampa de coração ou coisa assim. Lucille Ball era adepta do pastelão, o tipo de comédia mais fácil do público gostar e duro de se fazer. Ser bobo é um talento de poucos, e ela tinha isso de sobra.

A moça nasceu em 1911 – já com aqueles encantadores cabelos vermelhos – e quis atuar desde cedo. Pediu permissão à mãe e se mandou para Nova York. Chamada de “atriz sem talento” por alguns produtores, decidiu insistir de outra forma, virando corista na Broadway. Enquanto ganhava uns trocos dançando, continuava tentando a carreira fazendo testes. Lucy quase foi aprovada para ser Scarlet O’Hara em “...E o Vento Levou”! A investida não deu certo, porque Vivien Leigh ERA Scarlet. Mas nossa ruiva assinou contrato com a Metro para alguns filmes.

Se no cinema a coisa ainda transcorria meio morna, na vida pessoal ela pegou fogo. Lucy casou em 1940 com o cubano Desi Arnaz, muitos anos mais novo, músico e astro de uma banda itinerante. A cartada de mestre para ela ascender em popularidade aconteceu logo depois: vendo que a recém-inventada televisão estava roubando muitos fãs da telona, ela montou uma produtora e decidiu colocar o “I Love Lucy” no ar.

O seriado foi a maior audiência registrada durante os anos 50. As palhaçadas de Lucy agradavam em cheio às donas de casa. Como não agradar? Ela interpretava justamente uma delas – só que tresloucada e obsessiva por conhecer gente famosa. Em todo episódio, tinha alguma idéia imbecil para conhecer astros como Bob Hope e Joan Crawford. Quem mostrou que era engraçadíssimo ficar no beiral de edifícios com as pombas, afundar em tonéis de vinho ou ter de se esconder em armários foi a Lucy.

O tom dos programas seguintes era o mesmo – só que, daí, Lucille já não contracenava com o marido, de quem se divorciou por cansar das puladas de cerca dele. Ela não perdeu a graça com isso: só passou a aprontar mais ainda ao lado da amiga Ethel (a atriz Vivian Vance, outra baita comediante).

Teve um episódio, se bem me lembro, em que ela e a colega queriam participar de uma peça de teatro. Lucy conseguiu o papel de Cleópatra e Ethel, o de Marco Antônio. A cena derradeira, na qual as duas deviam morrer dramaticamente, virou circo. Nenhuma morria de vez, sempre dizendo mais uma frase, mais uma palavrinha, mais um suspiro... Era como o Chaves, só que feito por garotas. Se bem que baboseira animada assim, não tem gênero.

Lucille Ball ficou rica e famosíssima. Ela casou de novo, com um comediante chamado Gary Morton, e morreu em 1989. Fico indignada que ninguém ainda tenha lançado por aqui DVDs ou outro material com o melhor dos programas televisivos da Lucy. Seria uma bela homenagem a ela – e uma diversão sem fim para nós.

Os filhos da Lucy garantem que a mãe morreu sorrindo. Eu, até hoje, sou capaz de morrer de rir com ela.

Lucy.jpg
Fla Wonka às 04:52 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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