segunda-feira, 16 de agosto de 2004

A tal da religião

Há muitas semanas venho pensando sobre o tema – e, conseqüentemente, em escrever aqui sobre ele. Mas muitos me alertaram de que religião é assunto difícil. Então, numa hora fala mais alto meu lado prático: “vou dizer o que penso e milhares de fundamentalistas aparecerão para jogar pedras virtuais aqui nesta cachola”. Em outra, vem à tona minha mania de livre arbítrio: “vou dizer o que penso, já que tenho espaço para isso, e quem quiser pode se manifestar que eu agüento.” Esse venceu o dilema hoje. E vocês podem retrucar. Eu agüento mesmo.

O que me levou a falar sobre religião não é a vontade contida de causa tumulto. Definitivamente, sou diferente das pessoas que “dão um boi para não entrar em uma briga e uma boiada para não sair dela”. Se eu tivesse um boi, faria um churrasco para a turma – e, se tivesse uma boiada... bom, daí eu seria cantora sertaneja. Eu não gosto de bater boca até o sol raiar, mas também não tolero rotular assuntos como “fora de discussão”. TUDO pode e deve ser discutido. Isso é saudável. Então, vamos nessa.

Não sou religiosa. Já nem fico embaraçada de dizer “não, não tenho religião” quando perguntam se sou católica – apesar da família assim se intitular. O motivo? Simples (ou pelo menos eu gostaria que fosse simples): não me encaixo em nenhuma das opções definidas até hoje. No fundo, fico em dúvida se, um dia, vou escolher qualquer uma delas. Descrente? Cética? Não é para tanto. Ter religião e ter fé são duas coisas muito diferentes.

Ser religioso é comumente confundido com “ser bom”. Discordo. Já vi muita gente religiosa meter os pés pelas mãos bem nas horas mais importantes. São tementes, invocam deus a torto e direito, juntam as mãos até para pedir que a mocinha da novela termine a trama feliz. Logo em seguida, porém, tratam mal os mais humildes, são mesquinhas e invejosas. Isso é ser religioso – e bom? Eu passo.

Outro ponto me incomoda muito sobre as religiões. A maioria prega o castigo e a culpa como forma de manter as pessoas sob controle. Não acho isso bacana. Que mal há em ver pessoas felizes e seguras? Duvido que a força maior que rege o Universo, tão sábia, fosse querer suas criaturas todas humilhadas e com medo. Além do mais, fica muito fácil, né?

O sujeito faz uma penca de coisas erradas. Daí vai ao templo, repete mecanicamente dezenas de orações ensaiadas (cujo significado a maioria nem conhece) e se acha perdoado. Cômodo... Melhor mesmo seria consertar suas besteiras em vida, aqui e agora. Pisou na bola? Vá achar um jeito de se redimir com o prejudicado, amigo, não com deus!

Muito mais interessante seria dizer aos “rebanhos” que seus atos não estão sendo anotados em um caderno (não consigo crer que deus é essa velhota ranzinza...) ou que serão quitados em outras vidas, mas podem interferir na vida de outros.

Por isso é importante ser bom. Não porque qualquer escorregada vai dar em inferno, purgatório, limbo ou qualquer desses departamentos mantidos pelo Seo Capeta. Mas sim porque faz bem ao espírito escolher suas opções considerando os demais – e, se der errado, é preciso arcar com o prejú.

Tenho agonia de ver como a sanha religiosa já fez estragos no nosso pequeno mundinho. Ela está por trás de mais guerras do que qualquer outra motivação. Como pode? Eu acredito nesta entidade aqui, você naquela ali. Eu não suporto o fato de você não me dar razão e crio caso. Você se revolta com a minha opinião, entra na criação de caso e nós ficamos 50 anos nos bombardeando por conta disso e porque simplesmente não agüentamos ser vizinhos. Putz perda de tempo!

A fé de cada um de nós move montanhas, sabem? Mas não porque acreditamos nesse deus ou naquele lá. Não é porque somos da religião judaica, espírita, católica, evangélica, hinduista, muçulmana, messiânica ou budista. É porque podemos medir nossos atos antes de fazê-los, podemos tentar ser bons com o próximo – seja ele animal, vegetal ou mineral –, podemos não nos apegar com artigos materiais, trabalhar para progredir e discutir as diferenças pacificamente.

E eu levo a maior fé que todos aí entenderam esse ponto de vista.

* * * * * *

Ela não se encontra... Quer deixar recado?

Como Vivi já informou, o Garotas começa hoje um período de férias. Mas evidente que, meninas responsáveis que somos, não vamos cair no mundo todas de uma vez... Nesta semana, vocês só não contarão com os maravilhosos textos de Clara McFly. (Dizem que ela foi à padoca comprar cigarrinhos e nunca mais voltará, mas é mentira pura).

Para não se perder, anote aí os dias de descanso de cada mocinha:

Clara: de 16 a 20 de agosto
Flá: de 23 a 27 de agosto
Vivi: de 30 de agosto a 3 de setembro

Mas se vocês orarem por nós, voltamos mais rápido. Ok, isso não vai acontecer... Mas logo passa, de verdade!

Fla Wonka às 05:06 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold