quinta-feira, 12 de agosto de 2004

Corredores de prazer

Quem já conseguiu pensar bobagem sobre o título deste texto, pode desistir. Sou moça envergonhada demais para escrever algo apelativo. De tão avexada, já pensei em adotar as mais discretas profissões. Desde criança, por exemplo, um sonhava em trabalhar num museu. Pode ter sido influência do Indiana Jones no começo, mas até hoje não superei a vontade.

Depois de saber que Jones era um arqueólogo ousado (e corajoso e esperto e um pedaço de mau caminho), tomei conhecimento que esses profissionais não vivem fugindo de civilizações perdidas ou despencando de precipícios por culpa de nazistas. É muito mais fácil achá-los no museus, lendo, estudando, trabalhando atrás de pilhas de documentos. Parece chato? Bom, eu queria. Nem tenho rinite alérgica!

Visitar museu já é delírio, imagine trabalhar em um desses. Nos últimos por onde passei, na cidade de Londres, percebi que agora é prática comum colocar um guardinha em cada sala, para informar visitantes e manter a ordem. Até isso eu gostaria de fazer. Deve ser ótimo varar os dias na companhia de obras valorosas.

Museus não precisam ser lugares aborrecidos e monótonos, não. Isso, americanos, italianos, franceses, ingleses e outros já cansaram de provar. Muitos contam com decoração não-tradicional e aparelhos interativos para aproximar o visitante da exposição. No de História Natural, em Nova York, entrei em uma sala que simulava florestas tropicais – em cheiro, ruídos, clima, visual. Impressionante. Esperei para ver se apareceria algum plamiteiro ilegal ou madeireiro safado.

Mas mesmo aqueles que não podem apelar aos sentidos conseguem atrair atenção. Isso vai soar meio nerd, mas… ah, que importa: eu posso passar horas parada em frente a estátuas centenárias que representam toda uma época ou estilo. Já cheguei a me emocionar com isso, sabem? No dia em que vi "O Beijo", de Rodin, quase achei que aquilo era de verdade. Não pode ser assim tão perfeito… Mas não era pegadinha, não.

Tirando um pouco essa aura fajuta de paixão pelas artes, eu também sei ser bem mundana nos museus. Adoro visitar suas lojinhas, por exemplo! São centenas de besteiras como bloquinhos, agendas, lápis e canecas – mas eu adoro checar as novidades baseadas nas obras daquela instituição.

Uma vez, paralisei: no Museu de Ciência de Londres, a loja não tinha apenas badulaques bobos, mas prateleiras de brinquedos com algum fundo científico. Eu e o namorido arremataos de mini-bumerangues a canetas luminosas. Arte e conhecimento são sensacionais como sorvete – e lojinhas são o chantily!

Isso me fez pensar muito nos museus do Brasil. Nossa história pode não ser tão antiga, mas certamente merecíamos mais templos dedicado ao passado e ao conhecimento. Dizem que o público aqui não curte esse tipo de passeio. Julgando pelas filas quilométricas que se formam a cada exposição especial montada na capital paulista, eu discordo. Quem não gosta de ver preciosidades?

Fico danada de pensar no tempo que estamos perdendo deixando nossos museus à mingua. Os ianques juntam meia dúzia de teco-tecos e montam um oásis para amantes da aeronáutica americana. Na Itália, cada cidade tem lá uma portinha aberta para quem quer visitar a casa de um escritor famoso – ou até o Museu da Pasta Alimentar…

Os holandeses fizeram um Museu do Sexo, como se isso só existisse lá. E, na Inglaterra, o cúmulo é tomar tento de que há um Museu Sherlock Holmes – detetive esperto, sim, mas… de mentira! Nós podemos fazer igual ou melhor.

Se tivesse sido mais raçuda anos atrás, poderia ter estudado Arqueologia, História ou mesmo feito o curso de Museologia. A despeito dos que acham isso maçante e boboca, eu me divertiria horrores circulando no meio de livros e objetos seculares. Não ia, como Indiana Jones, rasgar toda a roupa caçando ídolos dourados… Mas é melhor assim, que garota tímida prefere o trabalho indoor.

TheKiss.gif
É um chega-junto lindo de se ver...
Fla Wonka às 03:33 PM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold