Sala de aula, no meu tempo, era um continente muito bem dividido – tanto com relação à geografia física quanto política. Quando o ano letivo começava, escolher um lugar era muito mais complexo do que apenas aboletar o traseiro em uma cadeira recoberta de fórmica verde-água. Tratava-se de seguir toda uma filosofia escolar.
As regiões era subdivididas conforme comportamento, aparência e índole dos estudantes. Você era uma menina loirinha, miúda e que curtia cadernos da Hello Kitty aos 12 anos? Se tomasse o rumo do fundo da sala, podia virar carniça em apenas alguns minutos. Fundo de classe escolar está para garotinhas tal qual o bairro do Bronx está para yuppies brancos.
Se o aluno era esperto mesmo, procurava oscilar entre as áreas, e não optar por se relacionar apenas com seus compatriotas de setor. Ficar tempo demais sentando nas primeiras fileiras poderia te tornar um sério candidato a sofrer nas cruéis mãos de outros garotos. Era o mesmo com quem sentava apenas "mais pra trás": se tentasse virar CDF e tirar boas notas, precisaria convencer o professor da virada de casaca. E isso era quase impossível, dada a fama da região.
Não sei as classes por onde vocês passaram, mas as minhas tinham sim essa geografia determinada. Conheça o mapa.
À frente, colado na mesa oficial
Era lugar para os CDFs mais CDFs – ou estudantes com graves problemas de miopia. Eles podiam sentar ali, nas fuças da professora e sob supervisão intensa, porque afinal já sabiam tudo por antecipação e não necessitavam colar na prova. Também eram muito requisitados para apagar a lousa, buscar mais giz ou ler o texto do livro. Puxa-sacos, na maioria, mas ainda assim alunos de bem e com grande futuro.
Relevo: planície imaculada, sem sombra de papéis amassados ou pontas de lápis no chão.
À frente, nas laterais
Não eram tão maníacos por estudo quanto aqueles colados na mesa da professora, mas eram bem atentos à aula. Em geral, eram os estudiosos que tinham vergonha de sê-lo – preocupados em não ser o centro das atenções e ganhar aquela pecha de sabe-tudo. Eram ótimos para pedir lição emprestada, pois lá na frente se prestava mesmo muito mais atenção e não era preciso ficar perguntando "o que a professora disse?", como do meio em diante.
Relevo: planície sedimentar, onde se acumulava apenas o pó de giz da lousa e alguns gibis de heróis japoneses.
O miolo
Era meu recanto, minha área, meu porto seguro. Para se manter no meio, era preciso ter livre acesso entre os crânios da frente e os dementes do fundão – e, para isso, diplomacia era fundamental. Coincidência ou não, era ali que ficavam os alunos nota 7, a intermediária entre o desempenho bom e fraco. Sentar no meio tinha vantagens: era possível conversar um pouco sobre as baixarias da corja estudantil e também fazer amizade suficiente com os CDFs afim de descolar uma boa parceria para prova difícil em dupla.
Relevo: planalto leve, com alguma ocorrência de aviõezinhos de papel e bilhetinhos de amor ao redor.
Os cantos
Gente discreta, tranqüila, na moda e não estressada com o saber assumia as laterais da classe. Relaxados e blasés, usavam as paredes como encosto e o corredor como depósito de seus pertences. Não raro, o professor tropeçava na mochila de um condenado desses e dava uma bela bronca. Exceto por esses momentos, no entanto, eles nunca eram lembrados. Nem mesmo na hora da chamada oral, pois sequer compunham o campo de visão do mestre. Bela tática.
Relevo: escarpado, com acúmulo de minhoquinhas de borracha – porque eles não prestavam atenção e passavam a aula desenhando no caderno.
O fundão
Ah, o antro! O ninho dos malditos. O local de reunião da escória estudantil. Descrever o que se passa ali deixaria pais horrorizados e diretoras em polvorosa. Toda sorte de marginal frequentou o fundão – e eu tenho certeza que aqueles que evoluíram para assassinos, estelionatários, contrabadistas e engenheiros passaram os anos de escola nessa área. A criatividade para inventar crimes era nota 10. A habilidade em tirar nota boa era 0. Com a média, eles passavam pela recuperação e, no conselho de classe, ganhavam liberdade condicional para a série seguinte. Às vezes, não rolava o habeas corpus, e eles bombavam de ano. Era o pior acontecimeto possível para uma classe, porque logo viraria não um maluco do fundão, mas um maluco do fundão REPETENTE! Muitos foram meus amigos… mas eu tinha um pouco de medo.
Relevo: acidentado. A possibilidade de encontrar bolas de papel, arame de caderno, corpos e restos de animais ali era altíssima.
E você, leitor? Onde estabeleceu posição nessa complicada geografia escolar, hein?