quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Contos da catraca

Bem se vê pelo título que eu sou paulista. Mas não importa o nome que seu estado dá ao dispositivo duro e barulhento que temos de transpor para andar de ônibus: as cenas que presenciamos ao fazer uso do transporte coletivo sob rodas são comuns do Oiapoque ao Chuí.

De tão escolada que sou de pegar o busum, conheço de cabeça todas as figurinhas carimbadas que marcam presença em toda e qualquer viagem, seja no sentido bairro-centro ou no centro-bairro.

Há caras de terno e gravata e mulheres arrumadinhas que nem olham para o lado; há mães com um bebês de colo e mais três sacolas de plush colorido; há turmas do cursinho, adolescentes na flor da idade; há colegas de trabalho que voltam juntas até um determinado ponto; há trabalhadores de roupa suja que dormem o tempo todo; há velhotas se aglomerando nos bancos especiais; e, claro, há Mirtes.

Os atos de observar e escutar essas figuras viraram um passatempo para mim. Se do lado de fora a paisagem do percurso é sempre a mesma, do lado de dentro as pérolas são únicas. Ainda bem que eu ando com meu inseparável caderninho de capa dura na bolsa para poder anotar as conversas mais surreais que já ouvi dentro do ônibus. E chegou a hora de revelar algumas – todas reais.

Passageira: Não acredito que a Solange fez aquilo! Como ela pôde? Nossa, caiu meu queixo.
(Duas colegas de trabalho estavam conversando seriamente sobre uma terceira menina. Elas contavam coisas da vida da fulana, opinavam sobre o caráter dela, amaldiçoavam suas ações erradas. Depois de um longo tempo, fui reparar que a pessoa não era amiga delas. Era a Solange do Big Brother).

Cobrador: Você aceita passe?
Passageiro: Sabe o que é, é difícil eu tomar esse ônibus...
Cobrador: Eu não perguntei isso.
(Por que os cobradores viram bicho quando as pessoas apresentam uma nota de 10 reais? Eles têm um caixa cheio de notas sujas e amassadas e rasgadas de um! E ainda quilos de moedas! Depois ficam melindrados se a pessoa, logicamente, não aceita passes como troco de dinheiro).

Motorista: Coitado. Além de bicha, é pobre.
(Essa foi uma das melhores! O motorista soltou a pérola ao ver um grupo de “teatro” pedindo dinheiro no farol. Os rapazes, ou não, estavam vestidos de mulher e fazendo a maior algazarra – naquela famosa tática usada por grupos de mambembes: ou você me dá uma moeda, ou eu te envergonho).

Passageira: Aí que eu vim noite passada. Esse lugar ferve.
(Quando a garota falou isso no banco atrás de mim, eu olhei para fora tentando ver a tal balada incrível. Era uma “casa de espetáculos” daquelas bem luz vermelha. Quer dizer, isso deu para reparar de dia. Imagine à noite! E imagine o tipo de “fervura” que o recinto fornece aos freqüentadores).

Adolescente 1: Sabe a Ana?
Adolescente 2: Aquela que eu catei?
Adolescente 1: Não, aquela que EU catei.
(Até hoje eu fico pensando se a Ana era a mesma. De qualquer forma, acho muito instrutivo ficar de orelha comprida em conversas de garotos do colegial. Podemos ver que, apesar dessa inglória fase já ser águas passadas – graças a Alá –, as coisas continuam exatamente como as deixamos. Tadinhos).

Passageiro: Oi. Oooi. Oooooi. (sacudidela)
(Odeio passar por isso! Você quer pagar a passagem, mas o cobrador está lá, dormindo, todo desengonçado na cadeira. Fica um misto de compaixão e raiva. Porque sabemos que o cara acorda cedo e tem aquela vidinha besta. Mas também precisamos dar continuação à nossa vidinha besta e andar de ônibus!).

Motorista: A Marta me paga.
(Além de referir-se à prefeita como se ela fosse sua vizinha dos fundos, o motorista, vendo um imenso cartaz da loira e vendo todo o trânsito que ela causou com aqueles montes de obras – para quem não sabe, São Paulo tem mais crateras que a Lua –, promete ainda justiça com as próprias mãos. E quem pode culpá-lo?).

Adolescente: A Ângela não fala mais comigo. Acho que é porque eu chamei ela de sapata na frente da galera.
(Ah, olha que exemplo bonito de sutileza e amizade! Quem disse que ônibus não enaltece sentimentos bons nas pessoas nunca encontrou um garoto tão gentil como esse aí. E a conversa continuou, com o amigo desfilando todas as provas que tinha para a tal garota gostar do mesmo sexo. Ficava pior, acredite).

Rapaz no celular: Namorada que fica amiga de mãe é treta.
(Ele contava a um amigo que uma ex-namorada ainda marcava presença na casa dele. Quando perguntava, ela dizia que estava visitando a mãe dele – truque do arco da velha, hein? O fato é que a ex-sogra fica tentando fazer a reconciliação, e o rapaz não estava com muita vontade não).

Hein? Enxerida, euzinha? Culpa do ônibus, minha gente.

Vivi Griswold às 10:00 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
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