terça-feira, 10 de agosto de 2004

No comando dos carrinhos

Lembram de quando eu disse que fazer supermercado era uma das coisas da lista de atividades bacanas-na-infância-mas-nem-tanto-agora? Eu também disse que ia tentar me divertir mais nas próximas vezes. Então. Está funcionando.

Notei que falo à beça enquanto escolho as ervilhas (pelo preço mais barato) e o sabão em pó (pela marca, que eu nunca tô a fim de ficar esfregando roupas – então tem de ser um produto bom). E toda essa conversa tem um único interlocutor: eu mesma. Sim, eu falo sozinha. E muito. Principalmente no supermercado.

Isso ajuda bastante a matar o tempo tomado por essa obrigação quinzenal. Sigo a lista comentando (em volume baixo, já que não quero ser levada dos corredores de farináceos direto para algum instituto mental) o que já peguei, o que falta e até mesmo arrisco, às vezes, um "ih, mas como vocês estão feinhas hoje" para as cebolas ou batatas menos privilegiadas da feira do dia.

Mas parte da diversão vem mesmo dos outros pilotos de carrinhos – especialmente quando você faz compras num supermercado pequeno, que aparentemente também serve como uma espécie de clube de encontro da vizinhança. As pessoas se conhecem, se cumprimentam e também comentam "ih, as batatas não estão muito boas hoje, né?".

E o melhor da história é que elas não estão nem aí se você não faz parte do clubinho. Conversam com você do mesmo jeito. Na minha última incursão ao mundo maravilhoso das compras, um velhinho esperou que eu escolhesse o café (pelo preço, que café eu trago de qualquer jeito) e sacou do "já experimentou desse?", apontando para o que eu havia enfiado no carrinho.

Eu respondi que não e confessei que, nesse caso, escolhia quase sempre o da marca o-mais-barato. Ele me assegurou que o tal pó era do bom (no bom sentido; pelamordedeus, era um velhinho, poxa!) e que sua missão no supermercado naquele dia era levar mais uns pacotes para casa, pois a mulher dele tinha gostado muito do café. Olha que simpatia!

Poucos minutos depois, estava eu na fase final das compras: a famigerada feira. E noto um senhor que escolhia tomates comentando com a mulher ao lado: "aumentou, viu? Eu deixei para comprar hoje porque achei que ia abaixar, mas não deu certo...". Fiquei chocada. As pessoas têm táticas de supermercado! Eu nem desconfiava da existência disso. Tenho lá as minhas técnicas, mas ir dois dias seguidos e apostar na queda do preço de um item já é demais.

Já me encaminhando para o caixa, eis que ouço a pérola do dia. Durante toda a minha estadia na loja, notei que havia um bando de crianças que gritavam feito pterodáctilos entre as gôndolas. De quando em quando, destacava-se o berro da mãe enfurecida. Alguns minutos de silêncio e, "ááááááááárrr", lá estavam os pterodáctilos de novo.

Até que, a certa hora, um dos pirralhos felizes se perdeu da mamãe. Tudo que ouvi foi "mãe, não tô vendo você", entre gargalhadas, seguido da resposta curta e grossa (e não tão risível assim): "vem cá que você vai ver é minha mão na sua cara já-já". Gente assim anima as minhas compras.

Clara McFly às 07:04 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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