sexta-feira, 30 de julho de 2004

Tristeza do jeca

Música sertaneja é mesmo um sofrimento. E não estou falando no sentido figurado, querendo dizer que o gênero hoje dominado pelas duplas de nomes bizarros não presta para nada a não ser afogar mágoas com pouca classe, além de atormentar as pessoas que consideram o estilo um pé bem dado no meio dos bagos.

Vamos voltar no tempo e pensar nas origens do cancionato desse Brasil véio sem porteira. Se as composições são mesmo inspiradas pela realidade do compositor, a vida desse povo era das mais trágicas. Afinal, a realidade expressa nas letras sertanejas mais antigas, na era pré-duplas com mullet, é triste para diabo e vai de bois sacrificados ao abandono romântico – mas com muito mais poesia e originalidade do que suas sucessoras.

Não espalhem, mas todas essas canções listadas aí debaixo cortaram meu coração – não só quando eu as ouvia de pequena, empoleirada no sofá da casa da minha avó, como ainda hoje, quando me deparo com elas sem querer. As cinco mais lindamente tristes – e mais eficientes em me fazer abrir o berreiro (ou enxugar discretamente uma lagriminha, se estiver em público) – estão aí.

5. Chico Mineiro, Tonico e Tinoco
A história de uma viagem feita para negociar gado terminou para lá de mal: além de ter seu parceiro – o Chico do título – assassinado em Ouro Fino, nosso aventureiro ainda descobriu, só depois da desgraça, que o presunto era irmão dele. Miséria pouca é bobagem.

A hora do lencinho: “Fui saber que o Chico Mineiro era meu legítimo irmão”, conclui o infeliz na estrofe final.

4. Menino da Porteira, Sérgio Reis
Ouro Fino é o palco favorito de tragédias sertanejas. Foi lá que um boiadeiro deu falta do garoto que sempre abria a porteira para ele e, ao perguntar para a mãe do petiz o que acontecera, descobriu que um boi mandou o moleque dessa para a melhor.

A hora do lencinho: “Quem matou o meu filhinho foi um boi sem coração”, diz a mulher ao boiadeiro, que jura nunca mais tocar o berrante por aquelas bandas.

3. Romaria, Renato Teixeira
Embora tenha ficado famosa em arranjos mais moderninhos, a música descreve a vida miserável de um certo caipira. A criatura diz que nunca viu sorte, perdeu os irmãos na vida e foi filho de um peão e da solidão.

A hora do lencinho: “Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida”, implora o homem a Nossa Senhora.

2. Seu Amor Ainda É Tudo, João Mineiro e Marciano
Ok, essa é a mais antiga canção de corno conformado da qual me lembro. Mas quer saber? Acho ótima. Dramática como tem de ser, conta as agruras de um coitado que ainda ama a mulher de quem se separou há tempos. Ele gosta tanto da moça que, às vezes, ainda se pega discando o telefone dela.

A hora do lencinho: “Daquele maldito momento, até hoje, só você”, enfatiza o pobre o quanto tem pensado na donzela.

1. Travessia do Araguaia, Tião Carreiro e Pardinho
Se o boi era o vilão em “Menino da Porteira”, aqui ele é vítima. Pelo menos um deles, que é mandado para as piranhas. O inexperiente ponteiro, praticamente o estagiário da comitiva, fica chocado com a ordem dada pelo boiadeiro mais velho de sacrificar um bovino. Só depois ele entende que essa é a única maneira de passar a boiada pelo rio infestado. Parece a história da sogra do Dino, mas sem humor algum. E sem final feliz.

A hora do lencinho: “Era um boi de aspa grande já roído pelos anos/ O coitado não sabia do seu destino tirano/ Sangrando por ferroadas no Araguaia foi entrando/ As piranhas vieram loucas e o boi foram devorando”. Precisava detalhar tudo, pôxa?


Clara McFly às 09:07 PM

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Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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