sexta-feira, 30 de julho de 2004

Uma ode a Morfeu

Muita gente diz, principalmente os mais velhos, que “deus ajuda quem cedo madruga”. Pois eu devo estar bem mal na fita do senhor... Tenho horror mortal de levantar da cama quentinha antes do sol estar já um tanto alto. Mas esse, sinceramente, não é um traço de personalidade que eu considere defeito. Parece muito mais natural acreditar que as regras do jogo é que estão erradas.

Deus ajuda quem cedo madruga? Pois o vizinho de uma amiga minha não acha. Ele acordou cedinho um dia desses e foi conferir se o jornal já estava postado na frente de casa. Saiu pela porta, com sua xícara de café pelando, no mesmo segundo em que o entregador arremessou o periódico – que atingiu a caneca de líquido fumegante, que atingiu o bilau do vizinho da minha amiga. Com o pobre peru chamuscado, o sujeito prometeu nunca mais acordar antes das 10h00.

Tá bem, tá bem... É tudo mentira... Esse senhor e sua história triste não existem de fato. Mas bem que poderiam! O episódio é perfeitamente crível – e, se pensarmos bem, veremos que levantar do leito com as galinhas não tem lá muitas vantagens. Os madrugadores defendem que, assim, o dia pode ser melhor aproveitado. Não cola: em vez de acordar às 7h00 e dormir às 22h00, podemos usar o turno das 10h00 às 1h00, e dá tudo no mesmo.

Optando por essa troca de horários, ganhamos bastante. Senão, vejamos: a) os programas da madrugada são mais legais que os da manhã; b) o pulso telefônico noturno é mais barato que o matutino; c) há mais silêncio para ler, ver filme ou trabalhar à 1h00 do que às 8h00 (quando a obra aqui ao lado de casa, por exemplo, começa a Sinfonia dos Infernos). E esses são apenas motivos imaginados de bate-pronto. Posso inventar milhares de outros nessa minha cabeça sonolenta!

Meu pai é um dos humanos que não entende a teoria. Homem trabalhador que sempre foi, ele acostumou a acordar ainda na escuridão e ir dormir nos meados da novela das oito. Isso é o que 33 anos de emprego em indústria podem fazer com uma pessoa. Como ele consegue, não compreendo: para mim, abrir os olhos e ver que o dia não clareou ainda só suscita a manobra de virar para o lado, puxar a coberta e apagar por mais dois pares de horas.

Já precisei levantar antes do raiar do dia, por isso sei como é horrível – e, pelo menos para mim, até hoje, impossível de acostumar. Na minha lista de “Motivos para Desenvolver Depressão Mórbida”, acordar às 6h00 da manhã está na primeira colocação. É revoltante sair do pijama naquele frio da madrugada, por exemplo. Nos tempos de escola, era a morte.

Outro dia li que obrigar adolescentes a entrar no colégio às 7h00 era uma crueldade. Segundo os médicos, o organismo dos jovens precisa de muito sono e não funciona bem logo cedo. Então, finalmente entendi porque dormi em TODAS as aulas de física do terceiro colegial! É contra a natureza fazer criaturas de 16 anos acordarem às 6h00 (ou até antes) para ter aula logo em seguida. Algum deputado pode fazer o favor de defender a molecada no congresso e mudar o período de estudo para das 9h30 às 13h30?

Talvez tudo isso pareça apenas um grande atestado de preguiça para a maioria. Tudo bem, eu sou mesmo fã demais dos braços de Morfeu, o deus do sono. Pode ser, mas não me arrependo disso quando estou entre os lençóis e edredons e travesseiros, embalada pelo soninho gostoso. E se deus for mesmo contra a opinião de Morfeu e decidir não me ajudar por causa disso... Bom, eu tentarei convencê-lo a fazer isso um bocado mais tarde.

Fla Wonka às 02:00 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold