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Eu era uma criança multimídia Uma das inúmeras vantagens da idade pueril é ter tudo que você faz aplaudido pelos avós, pais, tios e agregados orgulhosos – exceto, é claro, mancadas como trancar seu irmão num baú ou se comportar mal na frente das visitas, essas entidades místicas a quem o melhor da casa era sempre oferecido. Todos esses aplausos irrestritos me levaram a alçar vôos cada vez maiores (leia-se: pagar cada vez mais micos) nas minhas, digamos, experiências midiáticas. Depois de recordar outro dia as tradicionais brincadeiras de rua aqui e aqui, pus-me a pensar no que mais me distraía na infância. Entre algumas atividades não exatamente folclóricas, mas também não muito particulares, lembrei-me das aventuras de escritório, navio e outras bobagens. Foi exatamente aí no “outras bobagens” que recordei da imensa graça que eu via em fazer livrinhos. E revistas. E programas de rádio. E reportagens de TV. E peças teatrais. Ufa! Se essa fase da vida contasse no currículo, eu poderia dizer que sou uma profissional com vasta experiência multimídia. Desenvolvida na infância, claro. Aliás, por isso mesmo, minha vivência com tais veículos foi muito mais divertida – sem as necessidades de explicação do “conceito” da obra (tem coisa mais chata que obra explicada?) nem pressões sobre a “receptividade da crítica” (tem: crítica) ou a viabilidade comercial do projeto (ah, sim: pior que “crítica” e “conceito”, só mesmo os “negócios”). E hoje, no meu currículo, eu poderia registrar... Experiência em ilustração e edição de livros Eu fazia todas as histórias em folhas de sulfite dobradas ao meio (o que já dava uma brochura satisfatória para meus padrões) ou em folhas de linguagem, aquelas furadinhas, presas depois com uma bailarina (esse era, basicamente, meu trabalho de edição). Também ilustrava tudo com minha inseparável caixa de lápis de 36 cores – o verde-água e o rosa-choque, meus favoritos, eram sempre os primeiros a virar toquinhos. Só não me perguntem de onde eu saquei o nome do protagonista. Experiência em redação e edição de revistas e jornais Minha irmã, minha prima e eu tivemos a fase do desenho de moda. Vivíamos inventando modelos com roupinhas diversas. Começamos a nos especializar e produzir roupas de várias categorias, como “moda praia”, “moda festa” e “moda infantil”. Depois, desenhávamos uma capa, juntávamos tudo com grampeador e, voilà!, aí estava a “Gut!”, nossa publicação de moda (mais uma vez, não me perguntem porque esse nome). Que Vogue, que nada! Outra aventura foi o Jornal de Casa, periódico que eu fazia com o requinte de escrever e desenhar sobre um carbono preto, para parecer um jornal de verdade. O conteúdo era basicamente notícias do meu lar-doce-lar, como “Festa de aniversário do João termina com duas crianças arranhadas. Veja a lista de presentes”. Experiência em rádio Quando meu pai chegou em casa com um rádio gravador capaz de captar nossa voz sem usar microfone, já fiquei de pestana comprida para a novidade. Não demorou muito para que eu me apossasse do eletroeletrônico paraguaio e começasse a gravar imitações, piadas e karaokês. Bastou o trio que produzia a “Gut!” pilhar-se numa desocupada tarde de sábado em poder do rádio e pronto! Saiu um programa com entrevistas, músicas e quadros cômicos. Bem, pelo menos nós achávamos hilariante uma mulher chamada Claudia Peixe telefonar e pedir a canção “Borbulhas de Amor”. Ok, não é engraçado. Mas na época, pareceu. Experiência em TV De novo, tudo começou com uma nova aquisição do meu pai: uma câmera filmadora. Tive de esperar um pouco até que minha mãe me deixasse mexer naquela verdadeira geringonça, último modelo da época. Quando tive peso e coordenação suficiente e cartão verde para manuseá-la, pronto! Filmamos uma reportagem dentro das casas em construção na minha rua, no estilo “Comando da Madrugada”. E inventamos um programa chamado “Rumble!”. Dessa vez, não me perguntem do que tratava a tal atração. Não tenho a menor idéia. Só sei que eu gostava de títulos com exclamação. Experiência em teatro Todo ano, minha mãe preparava uma apresentação para celebrar o Natal. Teve jogral e reencenações do nascimento de Cristo. Até que, em 1990, achamos por bem cuidarmos disso – e fizemos uma surpresa para os adultos. Bolamos o roteiro, ensaiamos a primaiada, confeccionamos os adereços. Tinha interação com a platéia, personagens que iam da então Ministra Zélia Cardoso ao Papai Noel, passando por Sebastian, o garoto-propaganda da C&A, e até um número musical no fim. Chique, não? Não. Era um samba do Natal doido, mesmo. Mas que foi divertido, ah, como foi! Clara McFly às 08:19 PM |
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