quinta-feira, 29 de julho de 2004

Arqueologia ali na esquina

Ultimamente, tenho a impressão de que preciso usar chapéu de feltro, roupas e botas resistentes, picareta e lupa para encarar... uma visita ao jornaleiro. Haja espírito aventureiro para encontrar, em meios aos periódicos, algo que valha a pena ler – e que valha, ao mesmo tempo, cerca de R$ 8. Felizmente, ainda há esperança para os exploradores de estantes de banca de jornal.

Sendo uma moça, deveria usar o procedimento padrão e ir direto às revistas destinadas ao meu gênero. Mas com qual estômago? Não tenho intenção alguma de passar pela banca e pagar quase 10 mangos por um volume que fale sobre como agarrar homens, maquiagem, como prender homens, biquíni, como amordaçar homens, entrevista com o galã da novela, como achar homem parecido com galã de novela. Chato pacas, credo.

Também já não acho graça nas revistas de variedades. A maioria descobriu que capa “vendedora” é aquela trazendo na manchete “maconha” ou “Jesus Cristo”. Um dia conseguirão, finalmente, unir ambos e cobrir os custos de edição do ano inteiro inventando que Jesus fumava o cigarrinho do capeta...

Mas chega de tanta depressão e rancor. Existe, sim, possibilidade de fazer uma boa compra quando vou à banca localizada bem ali, no final do quarteirão. Na verdade, confesso: tenho medo que, por serem bacanas, espertas, inteligente e bem escritas, estas três revistas abaixo sumam logo do mercado.

É um temor procedente. Revista legal costuma não ter anunciantes, porque o pessoal da publicidade prefere estampar suas marcas em uma edição com a Suzana Vieira recauchutada na capa. Torço para que não aconteça – e, enquanto isso, aproveito a chance de me divirtir bastante lendo esses tesouros escondidos entre estantes.

Revista 10
Está na segunda edição, me parece, mas promete ser um oásis para que aprecia esporte. A rigor, a 10 trata de futebol – só que não se mantém naquele nicho besta de apenas dar resultado de jogo e explorar a mente de jogador cabeça-de-bagre. Já no primeiro número, tive a oportunidade de ver uma matéria com o cidadão que descobriu Diego Armando Maradona, uma bela (sem duplo sentido) reportagem sobre Kaká e várias outras pautas bem sacadas e charmosas. Talvez aquele meu tio barrigudo e cervejeiro, que torce aos berros estatelado no sofá, não goste da 10. Ele pode achá-la “muito enjoada”. Mas eu acho que vale a pena pagar para ter bom texto, ótimas imagens resgatadas e histórias brilhantes do esporte bretão contadas de forma tão genial.

Jornal da História
Para quem acompanha os bastidores da vida de umas tais Garotas que Dizem Ni, isso vai parecer uma tremenda e descarada auto-promoção. Não é, juro. Como jornalistas que precisam juntar alguma bufunfa no final do mês, fazemos matérias para várias publicações – mas a mais querida, verdade seja dita, é o Jornal da História. O motivo? A revista traz bom conteúdo e espírito didático sem se tornar sonífera. Ela nasceu como um filhote da revista Terra, também muito boa. E não é que o bebê superou mamãe? Quer dizer: os apreciadores de história, pelo menos, devem gostar muito. A idéia não é usar aquele texto chato e professoral, mas contar sobre acontecimentos que foram capazes de mudar o mundo. Não é aborrecido, é como ter aulas com um mestre muito bm humorado. E eu adorei saber umas fofocas sobre a vida de Napoleão Bonaparte.

Flashback
É a mais novinha das três – e também aquela com mais chances de vingar, suponho. Afinal, a julgar pelo tanto de malucos que vêm aqui ao nosso site ler sobre o passado não muito distante, a nostalgia está em alta. Como o nome anuncia, a Flashback (cria da revista Superinteressante, que já teve dias mais gloriosos) resgata lindamente os anos 70 e 80. A edição que suguei com os olhos trazia nada menos que os Trapalhões na capa! A matéria, perfeita, relembrou os 30 melhores momentos de Didi, Dedé, Zacarias e do saudoso Mussa. Tem ainda um artigo sobre a Corrida Maluca, mostrando quem mais venceu as carreteiras alucinadas entre Penélope, Dick Vigarista, Rufus Lenhador e companhia. Não é superficial ou fútil como pode parecer a alguns: reportagens sobre a Ilha da Fantasia, Playmobils, a coelhinha Magda Cotrofe e etc são, isso sim, entretenimento inteligente e agregador de alguma sabedoria. E esse é um ótimo motivo para insistir na aventura de explorar os domínios da banca de jornal.

Fla Wonka às 02:55 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold