quarta-feira, 28 de julho de 2004

Ela é muito liule

É sabido pelos leitores mais assíduos desse sítio que eu adoro ter irmãos – um monte deles, aliás. Seja para irritá-los ou para falar coisas boas a respeito desses maletas que invadem nossa vida e nos acompanham pela vida toda, sem possibilidade de escolhermos... ou não. Dos meus quatro irmãos, dois meninos e duas meninas, uma eu escolhi. E depois de bem grandinha.

A Rê tem um nome difícil de acertar de primeira: Regilaine. Não é Regiane, nem Regislaine. Junte a isso um segundo nome; ela, como eu, tem chamamento duplo – que vai permanecer devidamente secreto.

Ela é a criatura mais fiel aos amigos que eu conheço. Também é sincera e muito sociável - o que a torna excelente companhia para qualquer parada, de um encontro de jipeiros a uma festa na casa dum diplomata italiano; de bate-e-voltas para a praia a corriqueiras compras no shopping. Acredite-me, ela já fez tudo isso.

Como se não bastasse, a moça cozinha bem para caramba (prepara até brownies – e não daqueles de caixinha), dorme em qualquer superfície horizontal onde encostar, é distraída até dizer chega, acompanha novelas, entende o que eu quero dizer só pelo olhar e sempre me faz morrer de rir. Isso porque, entre outras cumplicidades de irmãs e bobeirinhas internas, a Rê tem um vocabulário muito próprio.

E bota próprio nisso. Alguns dos termos são cunhados pelas amigas meio doidas que ela tem, mas ganham uma entonação e um sentido todo especial quando pronunciados pela bela – que aniversaria hoje. Portanto, preparem-se e me digam se vocês já viram alguém sacar de...

Liule
Ainda não consegui definir se é um substantivo masculino ou feminino. Quiçá um adjetivo ou advérbio, ou mesmo uma interjeição. Na linguagem da moçoila, “liule” serve para chamar alguém (ex.: ô, liule!) ou para definir um estado de espírito (ex.: eu estava lá, toda liule).

Oi!
Regi transcendeu o sentido desse cumprimento e utiliza a minúscula palavra para responder a teoricamente qualquer pergunta. Você pode estar conversando com ela e perguntar “e aí, foi lá na 25 de Março comprar as coisas?”, ao que ela exclamará: “oi!”. Então tá.

Funk loser
Sabe Deus de onde veio essa. Mas o fato é que pegou – pelo menos no nosso círculo de amizades. Agora, quando queremos falar que alguém fez uma trapalhada ou bobeou em alguma coisa, a expressão natural é classificá-lo como um “perdedor do funk”. Vai entender...

Paspalho
Tá certo que essa palavra existe, está nos autos do Aurélio e tudo. Mas convenhamos: quanto tempo faz que você não ouve nenhum ser humano lançar mão desse verbete? Pois Rê é mestra em desenterrar expressões do “arco da velha” – provavelmente ela usa essa última também.

Meeeentira!
Outra palavra comum, mas dita com uma entonação toda particular por minha irmã de fé, amiga camarada. Servia como interjeição de espanto, porém depois de um tempo foi tão repetida que podia ser a resposta às mais simples frases, como “Rê, hoje eu fui trabalhar de metrô”.

Tum
Espécie de blá-blá-blá. Serve para resumir as histórias ou enfatizar um movimento, como por exemplo: “aí eu fui e, tum!, já falei tudo mesmo”. Ou “cheguei lá e não conhecia ninguém, mas – tum! – já me enfiei num grupinho”.

Eu não disse que ela é sincera e sociável? E que eu adoro essa menina, eu já disse? Pois então, fica dito. Feliz aniversário, liule!


Clara McFly às 06:23 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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