|
||||||||||
|
||||||||||
Dobradinha de risadas Música sertaneja não é, nem de longe, a que eu mais gosto. Muita gente ainda defende aquela do estilo raiz, caipira mesmo, acompanhada de viola e sotaque. Tudo bem, essa até acho engraçadinha – mas daí a botar para rolar no som, não mesmo. Ainda assim, confesso nutrir uma grande curiosidade para com o meio. Já notaram o nome daquelas duplas? É riso pra mais de metro, sô! Comecei a perceber esse fenômeno por causa da minha vó. Para a Dona Ondina, era deus no céu, Jânio para prefeito e Sérgio Reis no toca-fitas. Ela adorava o estilo do homenzarrão cantar “Menino da Porteira”, por exemplo. Também ouvia muito a Inezita Barroso – e não perdia um “Som Brasil”, com o Rolando Boldrim sendo embalado pelo “Amanheceu/ Peguei a viola/ Botei na sacola/ E fuuui viajar”. Lá é que reparei, de primeira, nos nomes de duplas sertanejas. Tonico e Tinoco foram os pioneiros. Ainda atuavam no esquema mais simples, de cantar música com história bacana – e não aquela toada de corno feita hoje em dia – e combinar os apelidos pela letra inicial ou sonoridade. Ficava meigo, inocente, engraçado e bastante abobado. Só isso já garantia certo sucesso à dupla, porque essas são qualidades que o povo do campo reconhece. Logo depois vieram outros sujeitos ainda mais brincalhões. Onde já se viu, arrumar um parceiro de cantoria e se auto-intitular João Mineiro e Marciano?! O João, imagino de onde veio. Já o Marciano... Com aquela cara, não duvido que tenha fugido de alguma nave criada pelos homenzinhos verdes de além-espaço. Milionário e José Rico também entraram nessa seara. Provavelmente, queriam chamar o sucesso na marra, já agregando uns cifrões aos nomes. Até onde sei, ganharam mesmo um dinheirinho (bom, pelo menos deu para comprar o monte de cordões dourados que ambos carregavam no pescoço). Um deles partiu desta para uma melhor, mas a nomenclatura da dupla permanece comentada. Viu como deu certo? Nos tempos modernos, a criatividade para escolher os nomes anda rara. Leandro e Leonardo não pensaram mais que quatro segundos ao optar pelo seu. Fizeram até uma “escola do mal”, incentivando a criação de outros insossos Gian e Giovani, Marlon e Maicon... Credo, que chato! O que Pena Branca e Xavantinho diriam sobre isso? Chitãozinho e Xororó também não é nome dos mais inventivos, mas passa. Apelar aos pássaros ainda é melhor do que manipular o próprio chamamento e criar um Frankenstein auditivo como Zezé di Camargo e Luciano! “Di Camargo” por quê, hein? Foi uma tentativa de imitar o Da Vinci? Mas ele não nasceu em Camargo, que eu saiba, e sim em qualquer lugar próximo de Goiânia. Dentre os novatos, Rio Negro e Solimões só não podem ser acusados de cair na mesmice. Ir até a Amazônia buscar nomes de leitos d’água foi corajoso. Ainda mais para um moço que não deve ter mais que 1,50 m de altura! Será que ele é o potente Rio Negro ou o violento Solimões? E de onde teria vindo tanta mania de grandeza? Mas a melhor dupla, aquela que carrega consigo o mais espetacular nome dentre todos, é sem dúvida... Teodoro e Sampaio! Haja criatividade. Teodoro Sampaio, vejam só, foi um célebre engenheiro e explorador dos interiores do Brasil. Construiu hidrelétricas, mapeou regiões, descreveu até fauna e flora por esse mundo velho sem porteira. Daí, como marca na história, virou dupla sertaneja! Para mim, a escolha desse nome é um sintoma de bom humor. Por obra do acaso, pode ser que eles se chamem mesmo Teodoro e Sampaio, vai saber... Mas prefiro acreditar que os tios usaram a máxima de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte piadista”. Preciso começar a ouvir mais essa turma. Eles devem ter ótimas histórias a nos contar.
Não é mesmo 'tudo de bão'? |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||