quarta-feira, 28 de julho de 2004

Dobradinha de risadas

Música sertaneja não é, nem de longe, a que eu mais gosto. Muita gente ainda defende aquela do estilo raiz, caipira mesmo, acompanhada de viola e sotaque. Tudo bem, essa até acho engraçadinha – mas daí a botar para rolar no som, não mesmo. Ainda assim, confesso nutrir uma grande curiosidade para com o meio. Já notaram o nome daquelas duplas? É riso pra mais de metro, sô!

Comecei a perceber esse fenômeno por causa da minha vó. Para a Dona Ondina, era deus no céu, Jânio para prefeito e Sérgio Reis no toca-fitas. Ela adorava o estilo do homenzarrão cantar “Menino da Porteira”, por exemplo. Também ouvia muito a Inezita Barroso – e não perdia um “Som Brasil”, com o Rolando Boldrim sendo embalado pelo “Amanheceu/ Peguei a viola/ Botei na sacola/ E fuuui viajar”. Lá é que reparei, de primeira, nos nomes de duplas sertanejas.

Tonico e Tinoco foram os pioneiros. Ainda atuavam no esquema mais simples, de cantar música com história bacana – e não aquela toada de corno feita hoje em dia – e combinar os apelidos pela letra inicial ou sonoridade. Ficava meigo, inocente, engraçado e bastante abobado. Só isso já garantia certo sucesso à dupla, porque essas são qualidades que o povo do campo reconhece.

Logo depois vieram outros sujeitos ainda mais brincalhões. Onde já se viu, arrumar um parceiro de cantoria e se auto-intitular João Mineiro e Marciano?! O João, imagino de onde veio. Já o Marciano... Com aquela cara, não duvido que tenha fugido de alguma nave criada pelos homenzinhos verdes de além-espaço.

Milionário e José Rico também entraram nessa seara. Provavelmente, queriam chamar o sucesso na marra, já agregando uns cifrões aos nomes. Até onde sei, ganharam mesmo um dinheirinho (bom, pelo menos deu para comprar o monte de cordões dourados que ambos carregavam no pescoço). Um deles partiu desta para uma melhor, mas a nomenclatura da dupla permanece comentada. Viu como deu certo?

Nos tempos modernos, a criatividade para escolher os nomes anda rara. Leandro e Leonardo não pensaram mais que quatro segundos ao optar pelo seu. Fizeram até uma “escola do mal”, incentivando a criação de outros insossos Gian e Giovani, Marlon e Maicon... Credo, que chato! O que Pena Branca e Xavantinho diriam sobre isso?

Chitãozinho e Xororó também não é nome dos mais inventivos, mas passa. Apelar aos pássaros ainda é melhor do que manipular o próprio chamamento e criar um Frankenstein auditivo como Zezé di Camargo e Luciano! “Di Camargo” por quê, hein? Foi uma tentativa de imitar o Da Vinci? Mas ele não nasceu em Camargo, que eu saiba, e sim em qualquer lugar próximo de Goiânia.

Dentre os novatos, Rio Negro e Solimões só não podem ser acusados de cair na mesmice. Ir até a Amazônia buscar nomes de leitos d’água foi corajoso. Ainda mais para um moço que não deve ter mais que 1,50 m de altura! Será que ele é o potente Rio Negro ou o violento Solimões? E de onde teria vindo tanta mania de grandeza?

Mas a melhor dupla, aquela que carrega consigo o mais espetacular nome dentre todos, é sem dúvida... Teodoro e Sampaio! Haja criatividade. Teodoro Sampaio, vejam só, foi um célebre engenheiro e explorador dos interiores do Brasil. Construiu hidrelétricas, mapeou regiões, descreveu até fauna e flora por esse mundo velho sem porteira. Daí, como marca na história, virou dupla sertaneja!

Para mim, a escolha desse nome é um sintoma de bom humor. Por obra do acaso, pode ser que eles se chamem mesmo Teodoro e Sampaio, vai saber... Mas prefiro acreditar que os tios usaram a máxima de que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte piadista”. Preciso começar a ouvir mais essa turma. Eles devem ter ótimas histórias a nos contar.

TeodoroESampaio.jpg
Não é mesmo 'tudo de bão'?
Fla Wonka às 02:33 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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