|
||||||||||
|
||||||||||
O livro da discórdia Brigas dramáticas, provocações irônicas, furtos sem razão aparente e distúrbios de toda sorte. É a trama da mais nova novela mexicana? Não, não: estou apenas falando do livro de reclamações do meu condomínio, por cujas páginas, repletas de intrigas, tive o prazer de passear no último sábado – quando fui registrar nos autos a visita do Mickey aqui no lar-doce-lar. Num micro-bairro com 160 casas, qual a chance de todos os moradores serem sensatos e tranqüilos? Menor do que a probabilidade da depilação com aquele creme estranho realmente funcionar. Eu já sabia disso antes de me mudar para cá – e tentei me preparar psicologicamente para minha primeira experiência em moradias mais ou menos coletivas, já que desde que me lembro sempre morei em casas com quintais próprios. Viver em sociedade é uma arte. Imagina viver em condomínio, espécie de sociedade disposta num terreno mais apertadinho. Só podia dar bobagens a rodo, mesmo. Como, por exemplo, o misterioso roubo das torneiras – um dos registros do tal livro, que fica na portaria à disposição dos moradores para reclamações, requisições, avisos (como o de que apareceu um roedor na sua casa) e pitacos na vida alheia (esse último item não estava propriamente entre as funções originais do caderno, aposto). Diz a nota que as torneiras do tanque e da pia da cozinha de duas casotas foram surrupiadas. Quem, por Deus, quereria afanar torneiras? E da pior qualidade, ainda por cima. Depois de ler tais parágrafos, estou sempre de olho nas minhas. Além disso, o bizarro fato fez o sumiço do garfo perder o posto de maior mistério aqui das redondezas. Mas ter sua torneira levada pelos amigos do alheio não é o pior que pode acontecer aos moradores desse condô. Vários outros registros no livro dão minuciosa conta de carros que estavam parados no estacionamento sem o devido crachá de autorização. Detalhe: nenhum dos reclamantes teve um desses veículos estranhos parado na sua vaga. Ou seja, deve haver um grupo de vigilantes do estacionamento, verdadeiros heróis que, em vez de se preocupar com a própria vida, ficam a espionar onde os vizinhos param seus carros. Que gente abnegada, não? A única queixa justificável que encontrei por ali foi a de uma senhora cuja vizinha de cima acreditava ser o gramado em frente às casas um imenso cinzeiro. A pobre contou 17 bitucas de cigarro atiradas à grama – e canetou o ocorrido no livro. Tudo bem que, se fosse comigo, primeiro acharia por bem tentar falar direto com a chaminé ambulante. Depois, caso a conversa não surtisse efeito, aí sim eu apelaria para aquele cadernão. Se ainda assim a sócia da Philip Morris continuasse a tentar cultivar uma plantação de tabaco nos jardins comuns, o próximo passo natural seria conversar com uns contatos e fazer a maledeta acordar ao lado de 20 cigarros decepados – o ideal seria uma cabeça de cavalo, mas acho que a moça não teria um eqüino disponível aqui nos parcos espaços do condô. No entanto, a melhor pérola do Grande Livro da Chiadeira, das Mesquinharias e da Pegação no Pé Alheio é mesmo a discussão sobre a piscina. Aparentemente, tal atrativo só é liberado para os moradores ou para visitantes menores de 12 anos (não me perguntem). Quando um morador deu uma festa no salão, conjugado à piscina, alguns convidados maiores de 12 resolveram molhar o corpinho – é o que afirma outro distinto cavalheiro residente deste conjunto habitacional do barulho. Ao ler a reclamação, o morador responsável pela festa esclareceu que o povo que se jogou na água eram seus familiares, também domiciliados neste endereço. Portanto, tinham direito ao uso da piscina. Mas não deixou por menos e chamou o reclamante de “Zé Povinho”. Achei que o dono do festerê tinha apelado um pouco. Porém, mudei de idéia logo que li a nota seguinte. Lá estava o “Zé Povinho” dando sua tréplica. Afirmava que os banhistas eram visitantes, sim – e ele tinha até fotos (!) para provar. Quer os foliões piscineiros fossem moradores, quer não, dou ganho de causa ao dono da festa. E ainda por cima processo o Zé Povinho por assistir demais ao “Big Brother”. Clara McFly às 06:54 PM |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||