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Corra do intervalo! Sou portadora da síndrome do zapping. Deu a hora do comercial na televisão, aciono as teclas do controle remoto sem dó nem piedade dos publicitários. Sim, até consigo lembrar boas peças de “reclame”, como diria a minha saudosa vovó. Hoje em dia, porém, é muito mais fácil se aborrecer com o intervalo e ter vontade de jogar uma bigorna na tela ao ver surgir as mais odiosas propagandas. A que me recordo de bate-pronto é aquela estrelada pela top model Ana Hickman. No comercial, ela está ocupadíssima com as colegas dentro de uma loja. A moça atende o celular, fala com sua agente e dispensa um contrato para propagandear carro compacto. Mas não basta dizer “não”. Ela sugere o plano de ação: “ai, diz qualquer coisa, fala que eu fui pra Nova York”. Putz, que chata! E me explica: por que uma garota tão feminina tem aquela voz de travesti? Curioso é que a mesma fábrica de automóveis responsável por essa peça bocó, a Volkswagen, tem outra forma de apresentar o carro. Muito mais divertida, por sinal. Acompanhado de um bando de amigos, um moço (péssimo cantor) entoa os versos da adorável música “Sunny” – mas cantando tudo errado, indo ao fundo do poço no refrão “Mamy... I love you”. Hilário! E daí vemos claramente a bênção das 4 portas, para escapar da mala-cantante. Muito melhor que a pentelha Hickman esnobando trabalho. Outra que me tira do sério é aquela do sabão em pó Ariel, que remove de tudo, até história esportiva. A mãe empresta a camisa da Seleção de 82, que o pai guarda com carinho, para o moleque ir à escola. O peste emporcalha a preciosa, mamãe decide lavar a roupa com o sabão milagroso que elimina até manchas criadas por Chernobyl. E o autógrafo de um craque segue ralo abaixo! Se é meu cônjuge, eu esfolo vivo. Comerciais de produto de limpeza e comida, em geral, apostam na união familiar para nos ludibriar. Enquanto você presta atenção nos bebês e filhotinhos de cachorro, engole a mensagem sorrindo. A tática se estendeu até os cartões de crédito, aliás. Já viram a nova do Credicard? Tão doce! Toca a musiquinha falando “mochila, lancheira, uniforme, calcinha, um pé de cada meia, agasalho, xampu...”. Foi uma graça da primeira vez. Na segunda também, vai. Agora que já vi 324 vezes, mudo de canal assim que ouço “mochil...”. Enjoa rápido, sabe? É como a nova investida do xampu Dove. Usando a música “Diariamente”, de Nando Reis e Marisa Monte, eles fazem uma explicação das propriedades do cosmético. E das filosofias da vida. É uma espécie de propaganda do cigarro Free, com aquelas colocações conceituais e blá blá blá blá blá. Zzzzzz.... Às vezes, é melhor mesmo deixar toda essa enrolação de lado e apostar no humor. Ou não. Os remédios andam apelando tanto ao riso que só conseguem é deixar a todos constrangidos. No cinema, outro dia, vi a peça de um spray para garganta. Um astronauta tinha dificuldade de se comunicar com a central de comando porque seu gogó estava irritado. Ah, faz favor... Cenário tosco, ator ruim, idéia péssima! Metade da sala ficou muda, metade soltou um muxoxo de impaciência. Mas a raiva máxima com propagandas de tv acontece na entrada feita pelo Banco Real ultimamente. A fim de apresentar um tal Serviço Van Gogh, usaram um texto horrendo. Na prática, diz que tem direito a agências bonitas, cafezinho e atendimento personalizado aquele que... possui mais dinheiro. Poxa, coisa mais preconceituosa, indecente, elitista! Safadeza mesmo mostrar na televisão aquilo que 99% dos clientes não pode ter – esta escriba incluída aí. Tenho certeza que Vincent Van Gogh odiaria emprestar seu nome para uma idéia tão esdrúxula. Tendo vendido apenas um quadro durante toda a vida, ele provavelmente não seria convidado a usar o pomposo Serviço Van Gogh. É por isso que eu me recuso a ver esse desfile de bobagem na tv. O melhor amigo do inconformado é o controle remoto. |
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