Ah, os 80! Como acontece com todas as décadas, o oitentismo está sendo revivido depois de 20 anos. Com a perspectiva que só o passar do tempo é capaz de dar, voltamos agora os olhos para aqueles anos em que ombreiras eram legais, os Trapalhões estavam na TV e bandas nacionais estouraram contando histórias para lá de bizarras.
Sim, sim. O mesmo passar do tempo que dá saudades e faz a gente olhar com carinho para o pogobol e o Detetive também fornece um pouco mais de senso – e nos faz perceber que alguns dos produtos dos anos 80 eram mesmo esquisitos. Especialmente aqueles veiculados pelo rádio.
Não sei se era o uso desregulado de tóxicos (lê-se tóchicos) ou daquela água declinada por passarinhos, mas as letras de alguns dos maiores sucessos da década contavam histórias para lá de malucas. A começar pela inesquecível, insubstituível e inestimável “Eu Não Matei Joana D’Arc”.
Vai ver era apenas senso de humor – e uma saudável disposição das bandas para não se levar a sério (o que faz falta no cenário atual). No fim, que outra década garantiu histórias musicadas como essas?
Acidente de avião legal
Em “Perdidos na Selva”, a Gang 90 narrava as delícias de embarcar numa aeronave que dá pane e cai no meio do mato. O que pode ter de legal nisso? Ah, sim: o rala-e-rola no matagal, depois. Acho que eu não gostaria nada de estar num avião em queda. Quanto mais num avião onde pessoas cantem “eu e minha gata rolando na relva/ rolava de tudo”.
A Metamorfose metamorfoseada
Só mesmo os Inimigos do Rei para transformar o pesado e delirante “A Metamorfose” (clássico de Franz Kafka em que um homem acorda transformado numa enorme barata) em algo leve e... mais delirante ainda. “Uma Barata Chamada Kafka” descreve o delicioso episódio do encontro entre um homem e uma cucaracha cheios de coisas em comum – do gosto por batida de limão ao mesmo signo.
Só pode ser a Mirtes!
Imagina aquela tiazona de subúrbio que sai na rua de bob com lenço por cima e desconfia que o filho do vizinho anda “cheirando maconha”. Pois essa, além de ser a Mirtes, também é a protagonista de “Mamma Maria” – aquela canção que parece ter sido gravada numa churrascaria, assinada pelo Grafite. Os versos falam da tal Mamma, que nunca deixa a filha namorar em paz – ela até manda a menina levar o irmão quando sai com o paquerinha!
Uma punk na Alemanha
Supla, o rebelde mais bem-educado e gente boa do mundo, pisou na Alemanha e topou com uma misteriosa garota – capaz de desaparecer numa piscadela – na capital do país. A história do encontro ficou registrada em “Garota de Berlim”. Se a menina era mesmo a Nina Hagen, eu correria três dias e três noites sem olhar para trás. Eu morria de medo dessa mulher de cabelo estranho, que passou boa parte da estadia no Rio mostrando a língua na janela do hotel.
Troca-se batatas fritas por sexo
Deixa ver se entendi: a excelente “Você Não Soube me Amar” conta a história de um casalzinho que se conhece por aí e sai para trocar umas idéias numa mesinha de bar. A certa altura, depois de pagar batatas fritas para a moça, o rapazote saca de algo do tipo “olha, o papo tá bom, mas seria bem mais legal se você tirasse a roupa”. É isso?! Por essas e outras que nunca haverá uma trupe como a Blitz...
Lavando roupa suja no portão
Sabe a clássica narrativa sobre a mocinha que acaba “prestando serviços” para o patrão, digamos, fora do ambiente de trabalho? Então. Dr. Silvana e Cia. imortalizaram tal crônica em “Serão Extra”. Os versos explicam como a senhorita se viu em maus lençóis ao chegar em casa depois da “hora extra” e encontrar sua mãe esperando no portão, cercada por toda a vizinhança – que tentava defender a moçoila cantando em coro “ela foi dar, mamãe!”. Surreal.
Cosmonautas, nuvens e narizes azuis
Aproveitar um acidente de avião para dar uns malhos, ser defendida pela vizinhança quando você saiu com o chefe ou topar com uma barata estranhamente semelhante a você são casos surreais, mas a esquisita viagem espacial cantada pelo Nenhum de Nós em “Astronauta de Mármore” bate todas – e, desconfio, não era para ser engraçada. Mas é. O cara voltou tão puro do céu que solta frases desconexas, como “as nuvens queimam o céu, nariz azul-ul-ul”. Melhor viajar de volta, filho. E parar de abusar do oxigênio puro.