sexta-feira, 23 de julho de 2004

Saudades da Júlia

Hoje não moro mais na Vila Sem Graça. Meu bairro – também o bairro da doce Vivi, por sinal – é repleto de lojinhas boas e outras porqueiras, casas de empada, padarias gostosas, bares e restaurantes a granel. Mesmo assim, ainda não achei por aqui uma alma-gêmea da Venda da Júlia. Explico o motivo da nostalgia por aquele local escuro, poeirento e, vá lá, com larga possibilidade de ser credenciado pelo Clube do Mickey.

Júlia era uma senhora japonesa que vivia no bairro onde eu morava lá em São Bernardo, quando criança. No andar de cima, juntava-se a numerosa família dela (ou a dona tinha 15 filhos, ou eu confundia um bocado aqueles olhinhos puxados). Embaixo, ficava a quitanda administrada pelo clã. E como supermercado era apenas para fazer despesa nos meus tempos de menina, visitar a Júlia quase diariamente garantia o feitio dos almoços e jantares pela mamãe.

Em termos de frutas, legumes e verduras, a venda era uma vergonha para os descendentes de japoneses – sempre reconhecidos por cuidar tão bem dos seus negócios e prezar bastante a qualidade de produtos. Quando me mandava buscar tomate para a pizza, por exemplo, a mãe sempre fazia ressalva: “escolhe só três, tenta achar os não muito batidos...”. Impossível: hortifrutigranjeiros, ali, pareciam ter sido usados como sparring em aula de boxe.

Mas qual criança achava graça maior em comprar maçãs, bananas, um pé de alface e inhame pra sopa? Não eu. Na Júlia, queria mesmo era saber das tranqueiras. Caramba, como quitandinhas juntam guloseimas baratas e deliciosas!

Quanto mais perto do balcão de pagamento, mais dava para achar as tralhas. Dos picolés de fruta – não tenho limite com sorvete de palito de uva, coco, chocolate e limão – aos chocolates, sempre arrematava gostosuras com o troco da compra. Sim: a obrigação era adquirir farinha, ovos ou uma lata de qualquer coisa. Mas, sobrando dinheiro, aquilo podia ficar mais emocionante ao paladar.

Entre os chocolates, o campeão era o Batom. Na falta do bastão (ou quando ele estava derretido demais), podia comprar os fabulosos Cigarrinhos Pan. Afinal, tudo tinha o mesmo adorável gosto de vela. Também apreciava o Deditos (como podia curtir um doce parecido com dedos mortos?) e o tal de Stick, barrinha recheada de morango.

Se o dinheiro não desse para um chocolate, podia gastar as moedas com chiclete. Ping-Pong e Ploc eram os líderes de mercado, ao lado do caríssimo Bubaloo, mas o meu predileto era um chamado Gummy. Na hora de fazer bola, esse não grudava no rosto. E todos conhecem a minha habilidade em grudar a goma no nariz desde criança.

Em meio ao balcão zoado da Júlia, havia muito artigo caseiro também – lembrando o tanto de pó que a nipo-senhora deixava acumular nas prateleiras e vitrines de comida, fomos crianças sobreviventes. A maria-mole era boa, os salgadinhos valiam a pena. Minha paixão, porém, eram os doces cristalizados. Deixa ver: tinha de abóbora, batata-doce, beterraba... mas não faço idéia do sabor contido naquele verde. Argh, parecia horrível. Os demais, em formato de coração ou estrela, eram deliciosos!

A sensação da Venda da Júlia, no entanto, era um quadradinho feito com amendoim moído e açúcar pacas. Se ficasse 20 minutos dentro da quitanda, era possível ouvir ao menos 20 vezes “Dona Júlia, vê uma Paçoca Amor?”. Nem guarda-chuvinhas de chocolate, nem Dadinho. Nem mesmo chiclé de bola com transfer, pirulito que virava apito ou as chupetas de caramelo. Nada era tão popular quanto a paçoca.

Precisava ter muito cuidado com ela, porque uma vez desembalada, a Amor virava rapidamente um amontoado de poeira no chão da venda! Mas tudo bem, a Júlia não ligava. Seu saudoso estabelecimento já era cheio disso mesmo...

PacocaAmor.jpg
Eu queria construir uma casa só com elas!
Fla Wonka às 02:00 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
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· Vivi Griswold