quinta-feira, 22 de julho de 2004

Crenças com data de validade

Desde um monstro morando debaixo da cama até um livro mágico capaz de atrair pesadelos: quando eu era criança, acreditava em muitas coisas. Algumas dessas crenças foram despertadas em mim por terceiros, outras – as melhores – eu mesma criei na minha cabeça. Hoje já não boto tanta fé na maioria delas, apesar de dar risada sozinha ao relembrá-las. E você, quer entrar um pouco na mente perturbada e pueril da pequenina Vivi?

A culpa da imaginação fértil dos infantes deve-se em grande parte aos adultos. São eles os contadores da história do tal velhote que mora no Pólo Norte e que sai de casa uma vez por ano para presentear as crianças do mundo todo. Depois, quando crescemos, percebemos que nada daquilo é verdade. E não vemos a hora de encontrar um pirralho para passar a balela adiante!

Eu até acreditei em Papai Noel. Achava que uma mentira não poderia ser tão famosa e duradoura assim. A prova cabal da existência dele foi no ano em que ganhei uma bicicleta. Eu havia seguido o conselho da Xuxa (?) e havia pedido o presente antes de dormir para o bom velhinho com toda a força do meu pensamento. Na noite de Natal, bling, lá estava minha Monark com cestinha.

Mas eu nutria fé mesmo pelo coelhinho da Páscoa. Claro, se um senhor de cabelos brancos não poderia distribuir milhares de presentes, um coelho poderia. E eram ovos de chocolate! E vinham embrulhados em lindos papéis coloridos! Minha mãe incentivava a crença com requintes de crueldade. Ela chegava a me dizer para deixarmos uma cestinha com um punhado de grama e com uma cenoura para o coelhinho ficar feliz. No dia seguinte, lá estava meu prêmio dentro da cesta. A cenoura havia desaparecido, e só restara um pequeno rastro de capim. Era para acreditar ou não, oras bolas?

Outras crenças, contudo, eu mesma criei. Chegava a acreditar, por exemplo, que toda a nossa vida era composta por dias de azar e sorte, intercalados. Quando o dia estava bom – cheio de surpresas, brincadeiras, notas boas na escola, programas legais na TV, podia esperar um amanhã chato a seguir. Mas tudo bem, porque depois viria outro momento de sorte, e assim sucessivamente para todo o sempre.

Acreditava também que os meus brinquedos, ao soar as doze badaladas noturnas, ganhavam vida própria. Toda manhã olhava atentamente para a prateleira cheia de bonecas Moranguinho e bichos de pelúcia e tentava reparar o mínimo traço de movimento que escapou sem querer. Tipo brincadeira de estátua, sabe? O pior é que eu encontrava. No dia em que um urso gigante pendeu a cabeça para o lado sozinho (claro, ela estava solta), quase tive um treco.

Aliás, tinha a maior crença de que um universo paralelo se desenrolava quando nós, humanos, não estávamos olhando. Sempre achei que cachorros e gatos latiam e miavam entre eles para disfarçar, na verdade, todo o conhecimento e linguagem avançados que tinham. Acreditava que a caixa d’água de formato engraçado que dava para ser vista ao longe era na verdade um disco voador disfarçado e pronto para voar assim que déssemos as costas. Ou que baratas e lagartixas eram seres espiões que se infiltravam em nossas casas para... ah, sei lá pra quê!

Acreditava que o livro sobre mitologia grega da estante da minha avó era mágico: só de olhar o horrendo retrato da Medusa, pronto, os pesadelos iriam perseguir meu sono. Mas se eu fizesse o sinal da cruz, teria sonhos mais agradáveis. Minha mãe que falava, quando via meus irmãos dormindo e dando risadinha, que eles estavam sonhando com anjinhos.

Hoje já não carrego nenhuma dessas crenças – mas isso não quer dizer que seja uma incrédula. Tenho outras! Afinal, olhar a vida e o mundo com criatividade é divertido. E não apenas quando se é criança!

Vivi Griswold às 10:52 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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