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Eu, a avestruz Quem me conhece, hoje, não saca de primeira. Muitos não sacam nem de segunda – e a maioria fica sem acreditar mesmo quando conto com todas as letras. Eu sou envergonhada. Tímida, contida, um bicho-do-mato desde criancinha. Isso já me causou muitos problemas de sociabilidade, mas atualmente estou quase curada. Disfarço bastante bem, esse é o segredo e a verdade. Quando pequenina, qualquer atividade estranha virava um trauma. Nas festas de aniversário dos primos e amigos, por exemplo, ficava no canto até alguém me resgatar do sedutor cachorro-quente para dançar ou brincar. Se não acontecesse, podia muito bem passar todo o evento muda, apenas balançando o pé discretamente nas minhas músicas prediletas do Balão Mágico. Já na escola, estar entre crianças da mesma idade... não ajudou em nada. Por causa da vergonha, fazia sempre uma amiga ou duas apenas na classe – e olhe lá. O esporte, tão comemorado por unir pessoas e promover entrosamento, falhou comigo. Isso porque nunca era escolhida na seleção de times. Diabos: em jogos com bola, tenho mais ou menos a habilidade de um orangotango (e alguns símios dessa espécie, suponho, ainda podem me dar um baile no pingue-pongue). Na ginástica olímpica, que eu adorava e onde me enfiaram para liberar energia, tudo era vexame para minha mente. Para começo, eu preferia praticar usando calça e camiseta, mas a professora exigia colan. Ficar com as pernas de fora, sem meia-calça, na frente de um bando de outras crianças, enquanto dava piruetas? Toda aula, antes de sair do vestiário, eu sentia vontade de chorar e morria um pouquinho... Roupas sempre foram uma carapaça de aço para quem, como eu, era tão avexada. No ginásio, para ir à escola, sempre amarrava usava calça larga, tênis e amarrava o agasalho na cintura – providencial para meninas que não querem admitir ter uma bunda. Andava um pouco arqueada também, assim menos gente notaria o busto em crescimento. Putz, como é sofrido passar de criança a garota na frente dos outros humanos! Não podiam nos enviar à uma caverna entre os 11 e os 18 anos? Vocês podem imaginar, então, o que senti quando uma tia achou de me presentear com um sutiã no aniversário de 12 anos. Eu já tinha outros, mas foram comprados com a minha mãe, sem que o assunto virasse pauta sequer em família. Ganhar “aquilo” ante os olhos de amigos foi tortura chinesa. Se a solícita mulher tivesse me presenteado com pedacinhos de bambu para colocar debaixo da unha, teria doído menos. Com o tempo, a blusa na cintura deixou de ser um cinto chumbado ao meu corpo e circular entre os meninos do colegial já não era (tanto) problema. Mesmo assim, a vergonha ainda morava aqui dentro. Ser chamada pela professora a ler minha redação alto fazia as bochechas ficarem vermelhas. Ouvir de outra menina que fulano gostava de mim, quase transformava a cabeça numa panela de pressão – e disso independia o fato de eu gostar do garoto ou não. Equilibrar a timidez com uma certa cara-de-pau foi a solução. Passei a combater a vergonha com uma falsa expansividade e/ou mau-humor. Entre amigos, fazia piadas e dizia coisas absurdas, por isso sempre me achavam a engraçadinha, a extrovertida. Já para contato com gente nova, vestia uma máscara sisuda e decidida, quase de uma garota bem nojenta e emburrada. Assim, talvez, eles me respeitassem logo de início e eu não precisaria passar vergonha fazendo papel de boba. O problema sempre foi esse: passei anos confundindo ser receptiva com parecer boba. Achava que, se eu me apresentasse e me dispusesse a fazer amizade, os demais me tomariam por uma otária babaca. Olha que perda de tempo? Ainda bem que repensei esse comportamento. Já faz alguns anos, deixei de lado a alternativa da postura “quase-mala”. Alguns ainda me conhecem e acreditam que sou brava – ouço tanto isso... me sinto uma sargenta! Cada vez mais, tento ser descontraída e sorridente ao conhecer pessoas novas. E, principalmente, tento me lançar em situações antes embaraçosas e encarar tudo sem corar. Nem sempre dá certo. Ainda fujo loucamente de ser o centro das atenções e detesto quando fazem chacota com a minha cara. Mas aprendi que dar a timidez à tapa tem compensações. Bom, eu consegui vir aqui hoje e contar tudo isso! Usei até a palavra “bunda” aí acima! Ai, céus, que vergonha... |
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