quarta-feira, 21 de julho de 2004

O lado B de viajar

Salvando as proporções, viagem é como parto: ficam na memória todos os momentos felizes, enquanto sensações ruins, lágrimas e dor são armazenadas no esquecimento. Como ainda nem penso em entrar na fila para pegar uma senha da cegonha, não posso falar muito sobre dar à luz. Mas viajar... Dessa alegria eu entendo bem.

Olhar a primeira vez para Machu Picchu é completamente diferente de olhar para a Torre Eiffel. Assim como pisar em areias egípcias não pode ser comparado a pisar na Oxford Street. Cada viagem é única, e cada experiência é única: menos as más. Pois essas costumam se repetir incessantemente, seja qual for o seu destino – o outro lado do mundo ou o outro lado da cidade.

Portanto, se você pensa em tirar alguns dias longe de seu ambiente cotidiano, prepare-se para as situações chatas que vão acompanhar sua folga. Mesmo que você não queira.

Já chegou? E agora?
Eu preciso confessar uma mancha no meu currículo de mochileira: odeio viajar de avião. Pra começo, o ar é gelado e estranho. Depois de um certo tempo, suas narinas estão dormentes. A comida é pouca e ruim. O viajante, mesmo desembolsando a quantia absurda da passagem, se sente uma vaca em carro de boi: sem espaço, sem ar, sem cuidado. Não importa se a travessia durará 30 minutos ou 15 horas. Piso dentro de um daqueles e já vou querendo saber se vai demorar muito para descer. Viajar de ônibus é bacana, mas não tem um banheiro muito confiável. Eu falo isso de experiência (ruim) própria, de quem já encarou um dia e meio em um chacoalhante coletivo em alguma quebrada do Peru. Carro é a melhor opção, se houver escolha: você pára onde quiser para esticar as pernas e comer um quitute.

A vida própria do seu cabelo
Só quem se preocupa com esses fios no topo da cabeça já percebeu um fato que a ciência ainda não explorou: é só você sair do perímetro cotidiano que seu cabelo começa a ter vida própria. Ainda que você, como eu, se preocupe em levar os mesmos xampu e condicionador, e tratá-lo do mesmo jeito de sempre, ele não obedecerá. Daí, quando você menos espera, uma estranha massa disforme e rebelde tomará o lugar de suas madeixas, antes domadas. É impressionante! Mesmo o meu, composto por uma quantidade de fios como a do Cebolinha (e mais curtos), esquece de seguir a saudável lógica da escovação e da gravidade. Cada fio, por sua vez, resolve tomar uma direção distinta e independente dos coleguinhas. O resultado? Sabe a Diana Ross? Pois é. Dizem que é a diferença de umidade. Eu não acredito.

Mala, essa estranha
Parece que os espíritos que moram no meu armário também gostam de entrar de férias comigo. A primeira mala que eu monto, ainda aqui em casa, é um primor: as camisetas são enroladas em tubinhos, as meias formam bolinhas, os pares de sapatos são guardados dentro de sacos individuais, as calças e casacos mais pesados são dobrados em cima de tudo. Mas algo acontece assim que eu fecho o zíper. Quando chega a hora de abri-la, já no destino das férias, o que antes estava arrumado com carinho agora revela-se um ninho de ratos. Como isso pode acontecer, já que ninguém mexeu lá dentro? Chama o Padre Quevedo! O problema maior é que, uma vez bagunçada, não há estímulo para ajeitá-la novamente. No final do passeio, difícil é saber qual meia está usada ou qual calcinha está limpa. Um nojo.

Saudades do banheiro lá de casa
Se eu pudesse escolher um item caseiro, de qualquer natureza, para me acompanhar, eu escolheria o banheiro. Porque só quem é menina e só quem já precisou de um na hora do aperto (literalmente falando) sabe da dificuldade de encarar o vaso de estranhos. Há também outros motivos para eu querer levar meu lindo banheirinho: o chuveiro. É preciso tomar pelo menos um banho gelado ou fervente para você aprender a usar chuveiro de hotel/pousada/albergue. Aquilo devia vir com manual! Nenhum se comporta da mesma maneira, ou como deveria – abrir a água quente, por exemplo, não garante que água quente sairá dos furinhos. E você, na situação mais desprevenida possível, nem tem como gritar por socorro. Ainda mais nas viagens econômicas que eu faço, ficando em quartos sem banheiro... Cruzes.

Com que roupa eu vou?
Acontece em qualquer viagem programada para durar 30 dias – vai chegar uma hora em que você enjoará do próprio visual. É que quando viajamos, não podemos levar uma bagagem muito grande. A ordem é “ir com o mínimo para voltar com o máximo” (ou seja, lembrancinhas legais compensam o saco que é levar apenas um casaco). Ocorre que acabamos optando por duas calças, três camisetas, uma blusa de lã e algo um pouco mais pesado para alguma frente fria. Parece simples, não? O difícil, passadas duas semanas, é conviver com tanta falta de opção. Olhar-se no espelho vira um martírio. Sem falar na dor-de-cabeça de arrumar um jeito para lavar as poucas peças disponíveis. Eu, por exemplo, já tive de esfregar calça jeans em pia de albergue e botá-la para secar no aquecedor do quarto. Um fato para cair no esquecimento.

Quero meu dinheiro de volta
O avião, o cabelo espaventado, a mala revirada, a vontade de fazer pipi em um lugar limpo, o guarda-roupa escasso: tudo isso é deixado de lado quando chegamos na maior atração de nossa viagem. Mas quem garante que ela estará lá? Eu sou a rainha de pegar monumentos na fase de restauração – quando horríveis lonas e andaimes tampam a maior parte da visão. Na primeira vez que fui para Roma, o teto da Capela Sistina estava coberto bem na cena mais importante de todas (o encontro dos dedinhos). O que fazer? Pedir o dinheiro de volta? Sentar e chorar? E não preciso ir longe não. Quando fui para Tiradentes, há poucas semanas, peguei justamente o dia do encontro nacional de Harley Davidson. Velhotes vestidos de couro nas ruas de paralelepípedo acelerando motocicletas envenenadas? Tudo a ver.

Pelo menos experiências ruins não saem na foto.

Vivi Griswold às 11:05 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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