Brincar é tudo. Aliás, competir e se divertir, em maior ou menor grau, é tão bacana e tão parte da natureza humana que a gente faz isso a vida inteira – só mudam os brinquedos, conforme a idade. Na aurora da nossa vida, as atividades são mais claramente, er, digamos, brincadeiras. Mais tarde, brincamos de ir ao cinema, de passear de carro, de dançar com os amigos, de escrever em sítios que-eram-rosa-e-agora-são-listradinhos.
Qual a diferença no olhar daquele seu primo que ganhou um Pégasus de controle remoto no Natal, ao abrir o pacote, e do seu amigo que, depois de muito suor e financiamento, buzina na frente da sua casa de dentro do primeiro carro adquirido? E entre aquela vizinha que obriga todos os menorezinhos da rua a servir de alunos para a escolinha improvisada na calçada e as professoras que aturaram a gente no primário?
Pode-se dizer que brincar, de maneira geral, fica cada vez mais caro. Basta ver que um carro de verdade custa beeeeem mais que um Pégasus (que já não era nada barato) e ensinar 30 crianças enlouquecidas é mais difícil que meia dúzia de vizinhos. Isso sem contar que ir a uma danceteria ou pegar um cinema a dois não sai por menos de 40 pilas, ao menos cá em São Paulo.
Embora eu ainda drible a facada aplicada pelo ramo do entretenimento paulistano reunindo amigos em casa, para conversar, comer, beber e jogar, tenho saudades de quando brincar custava literalmente nada. A não ser tempo, coisa que a gente tinha de sobra. Era só escolher – muito provavelmente entre uma das brincadeiras abaixo ou entre as que continuarão a lista amanhã – e correr para o abraço. Ou, melhor dizendo, para a rua.
Alerta
Bem popular onde eu morava, consistia em reunir umas cinco ou seis crianças que respondiam cada qual por um número. Uma delas ficava com uma bola, gritava um dos numerais e jogava a tal bem alto. O escolhido tinha que correr para agarrar a pelota, enquanto o resto debandava para mais longe quanto possível – visto que, em seguida, o portador da bola tentaria “queimar” quem ficasse mais perto. Eu sei, parece estúpido. Mas eu era capaz de passar horas entretida nisso.
Sela
Essa era uma boa pedida para a saída da escola – até algum fraco começar a chorar, atrair professoras e inspetores e acabar com a brincadeira. Isso porque os estilos de pulo podiam mesmo ficar bem cruéis, do tipo “unha de gavião” (em que a gente pulava cravando as tais nas costas da pobre sela) ou “pastelão” (que consistia em dar um tapão de mão aberta no mesmo local). Depois eu digo que criança pode ser bem má e ninguém acredita...
Elefantinho Colorido
Eis uma das brincadeiras folclóricas mais esquisitas que eu já vi. Deve ter sido inventada por alguém que abusava da água que passarinho não bebe. Afinal, que sentido tem deixar uma criança passar e outra não, dependendo das cores que ela portar nas roupas e acessórios? E por que perseguir o coitado que não tem a cor? E, acima de tudo, por que diabos “elefantinho colorido”? Tá mais para viagem de lucy-in-the-sky-with-diamonds que para brincadeira infantil.
Esconde-esconde
Essa era uma das minhas favoritas. Porque não era simplesmente correr e se esconder em algum lugar, com a chance, ainda, de salvar todos seus camaradas se a modalidade jogada fosse a “último-salva-todos”. Para minha imaginação infantil, a emoção era a mesma que eu teria se estivesse me escondendo do diabão d’“A Lenda” – uma das figuras que mais me apavorava à época – ou do Homem do Saco. E salvar todos fazia com que eu me sentisse uma verdadeira heroína.
Passa Anel
Aqui, era só contar com um anel – podia ser aqueles de doce ou o de uma tia mais desapegada das bijouterias (a chance do objeto rolar para o bueiro era sempre considerável). A criança da vez guardava o adereço entre as mãos e ia passando por todo mundo, até deixar o bagulho com alguém, imperceptivelmente. Que aula para fazer avião, hein? E eu não estou me referindo exatamente a aeronaves.
Brincar é tão legal que, uma vez começado, a gente não tem mais vontade de parar... Por isso, amanhã a lista segue – quem sabe com opiniões e sugestões publicadas no Fórum. Quem quiser brincar, põe o mouse aqui!