segunda-feira, 19 de julho de 2004

De quantias e Garotas

Há alguns números míticos – acho que no momento seria mais moderno dizer “cabalísticos” – que pontuam a existência humana e dão as caras quando queremos expressar uma miséria, um exagero, uma conta redonda. Um, três, sete, dez, cem e mil são alguns deles.

Ninguém comemora com tanta ênfase a virada de um ano “quebrado”, como 1997 para 1998. Já o ano novo do milênio – que, ao contrário do que muitos pensam, era tão “quebrado” quando o reveillon citado, já que não existe ano zero e a tal virada foi quando o calendário abandonou 2000 para 2001 – foi a maior festa.

Casamento é outra bela prova dessa fascinação que nós, pobres mortais, temos por números fechadinhos. Aniversário de 50 anos de enlace é o tipo de festa capaz de reunir a família toda – inclusive aquelas perigosas tias que apertam suas bochechas e sacam da frase “e aí, e o namorado?” (se você é livre-leve-e-solta) ou “e o bebê, vai ser para quando?” (caso você já apareça com alguém a tiracolo). São as chamadas bodas de ouro. E aniversário de três anos de casório, é boda de alguma coisa? Deve ser de qualquer porcaria, tipo papel.

Três é mais importante na religião. A divindade cristã admite a existência de uma trinca de poderosos: o Pai, o Filho e o Espírito Santo – que na verdade são um só. Olhaí outro número de peso (apesar de expressar uma quantidade mirradinha): um!

Sete, então, nem se fala. É o número dos pecados capitais, dos anões, das mulheres de Zeus e das pessoas chamadas Fernanda que estudavam na minha classe. Dez são os mandamentos (isso porque concordo com Mel Brooks e desconfio que Moisés quebrou mesmo uma das tábuas), as pragas do Egito e boa parte das listas produzidas aqui no Garotas – e no resto do mundo (por que ninguém faz listas com os seis melhores qualquer-coisa?).

Porém, o mais pesado dos números redondos é mesmo o milhão. Só perde para o zilhão (que deve ter sido inventado por alguém. Não existe mesmo, existe?). A quantia cheia de zeros à direita expressa tudo que queremos dizer aos montes, com folga ou com exagero. A gente pode afirmar ter um milhão de razões para gostar dos Beatles, passar uma manhã chuvosa debaixo das cobertas ou não votar no Maluf. Peraí. Nesse caso, acho que existem mesmo um milhão de razões – literalmente.

Um milhão ainda é o número de amigos que o sêo Roberto Carlos queria ter (para cantar bem mais forte), o sonho em dinheiro de todo pé-rapado feito a gente e o milho gigante que o sêo Silvio trocava por um tênis Montreal naquela cabine em forma de foguete do “Domingo no Parque”.

Agora, um milhão ganhou um novo sentido para as três desmioladas que comparecem diariamente por aqui. Não é mais apenas uma quantia que, se paga em barras de ouro, valeria muito mais que dinheiro. Nem o nome do hotel habitado por Milla Jovovich no filme com Mel Gibson, dirigido por Wim Wenders.

Hoje, ultrapassamos a marca de um milhão de pageviews. Desde 19 de maio do ano passado, pouco mais de um mês depois do começo do sítio, as páginas do Garotas foram acessadas 1.002.394 vezes (até o exato momento em que escrevo estas linhas) por gente muito mais bacana do que jamais imaginávamos quando botamos no ar nosso projeto.

Pensei em agradecer – em nome dessa trindade loira-morena-ruiva, que de santíssima não tem muito - com um milhão de obrigadas. Mas ia ficar meio óbvio. Então, leitores, recebam nossos 1.567 obrigadas pelo acontecimento. Isso é que é show de milhão.

Clara McFly às 08:54 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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