|
||||||||||
|
||||||||||
Ultraje de verdade O rock brasileiro, eu acredito, nunca teve uma época tão feliz e produtiva quanto nos anos 80. Foi naquele período que moços e moças de Rio de Janeiro, São Paulo e da jovem Brasília tiraram os carros de seus pais da garagem para enchê-las com instrumentos barulhentos. E de moquifos assim surgiram Paralamas do Sucesso, Legião Urbana, Barão Vermelho, Titãs e uma série de outros. Estão vendo? Na hora de enumerar as pérolas roqueiras oitentistas, até eu sou injusta! Mas o Ultraje a Rigor foi, com certeza, uma das melhores aparições do Rock Brasil. Lá no comecinho da década, a banda já era bastante conhecida no país – e contava com o bacana Roger nos vocais e ninguém menos que Edgar Scandurra, hoje do Ira!, na guitarra. Lembro que meu irmão era liberado para ir nos shows do Ultraje, mas eu só podia ouvir em casa, na vitrola. E, mesmo assim, quando meu pai não estivesse olhando, porque ele tirava o maior barato da letra de “Inútil”. Dizia que era uma música bem apropriada para nós, seus filhos... Droga. A bem da verdade, parece que tivemos primeiro um compacto do Ultraje a Rigor, e não um disco todo. O pequenino vinha com os sucessos “Rebelde sem Causa” e “Eu Me Amo”. Começaram bem os sujeitos ou não? É verdade: as letras eram sarristas e meio adolescentes, mas também eram geniais. Num tempo em que imagem de revoltado era tudo, quem mais teria a cara de pau de cantar “eu me amo, não posso mais viver sem mim”? E a outra, então: “não vai dar, assim não vai dar/ pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar”. Muitas outras bandas famosas podiam ter entendido o recado de Roger e gangue. Conta o site do próprio grupo (www.ultraje.com.br) que, no início, eles se juntaram para ser uma banda de covers – principalmente de Beatles, rock dos anos 60, punk e new wave. Logo eles viram que se ater às letras dos outros era complicado, e a banda decolou. O primeiro álbum grande, “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, quase furou no toca-discos lá de casa. A bem dizer, quase furou no bairro todo, porque festinha de garagem sem Ultraje, não dava pé. Também, olha a seleção: “Ciúme”, “Inútil”, “Zoraide”, “Independente Futebol Clube”. Foi tão cantando pela molecada que “Nós Vamos...” tornou-se a primeira produção nacional a levar disco de ouro e platina. Os pais achavam uma besteira sem fim. Os filhos achavam bom de dançar, de cantar, de imitar. Ah, sim: toda banda de garagem lá do ABC fazia cover do Ultraje. Sim, porque todo garoto oitentista queria mesmo é transgredir e usar palavras quase-de-baixo-calão como fazia o Roger. E olha que os rapazes da banda ainda nem tinham apelado tudo que podiam. Depois do “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, que arriscou versar sobre uma galinha com cara de babaca e que soltava ovos pela... oh, céus... cloaca, eles lançaram “Sexo!!”. Além da canção-título, transformada em hino para muito marmanjo safado, o set list ainda contava com uma tal “Pelado”. Uma das minhas tias jurava que aquilo era uma pouca-vergonha e seria banida das rádios. Pois tocou na abertura de “Brega e Chique”, a novela das sete... Titia teve que aturar não só a letra “indecente” dos meninos, mas também aquele moço desfilando com a bunda de fora (e depois uma parreira)! Desse disco, porém, a minha predileta era “Terceiro”. Ora bolas, eu era a caçula de três irmãos, ser terceira em tudo – de escolher a cama no hotel a tomar banho – eu era sempre sempre sempre a retardatária. Não era a toa que me identificava tanto com as letras do Ultraje. Aliás, eles também se identificam com essa música, certamente. Na lembrança geral, eles sempre são “terceiros”. Que pena!
Faz tempo que estão na estrada, hein, caras? |
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||