segunda-feira, 19 de julho de 2004

Ele é mais ele

Qual de nós gosta realmente de acordar de manhã cedo? Ou consegue encarar com entusiasmo a chegada de mais uma segunda-feira? Ou escolhe feliz duas horas de exercícios físicos a um tempo similar na frente da TV? Ou, ainda, prefere comer uma refeição diet a um prato calórico de comida italiana? Nenhum de nós. E, por isso, somos todos um pouco Garfield.

Um gato laranja gordo e preguiçoso é colírio para os olhos dos amantes dos felinos. Mas Garfield consegue ultrapassar as barreiras das preferências sobre animais domésticos por ser terrivelmente humano – na verdade, todo gato tem um quê de gente, mas isso só quem tem um pode saber.

Enquanto seu “rival” de quatro patas Snoopy é uma tirinha sisuda, atormentada e politizada, as histórias de Garfield versam basicamente sobre comer, dormir e brincar de vez em quando. Ele não está nem aí com o sistema de governo – a presença do cão Odie lhe é uma questão bem mais importante. Ele não faz filosofias além de “minha paixão por lasanha só é comparável à minha raiva pelas segundas-feiras”. Ele só tem compaixão pelo dono por este ser provedor da casa e da televisão. Garfield é mais... Garfield.

Jim Davis, seu criador, passou a infância em uma fazenda em Indiana junto com os pais, o irmão, algumas vacas e 25 gatos que aproveitavam a hospitalidade de sua mãe, uma cat-lover declarada. Um belo dia, porém, Jim teve um súbito ataque de asma e foi forçado a ficar recluso e longe dos animais. Foi aí que ele começou a desenhar.

Em 19 de junho de 1978, Garfield saiu pela primeira vez estampando 41 jornais. Ironicamente, ele é o único gato da vida de Jim – além da asma, o cartunista casou-se com uma mulher alérgica a pêlo de felinos. Ainda assim, Jim consegue passar para os desenhos todas as agruras da vida dos semelhantes de Garfield: o problema constante de queda capilar, a vontade de gastar as unhas no sofá do dono, a certeza de que é o ser intelectualmente superior da casa, etc.

A melhor sacada das tirinhas, na minha modesta opinião, é não dar voz ao personagem – e sim balões de pensamento. Enquanto o humano e o cão estão de olhos esbugalhados e feições idiotas, Garfield acaba com ambos silenciosamente. Para John, o dono, ele é apenas mais um gato preguiçoso e mau-humorado. Sua lerdeza humana é tanta que Garfield consegue, com o ar mais cândido do mundo, empurrar a culpa de um jantar estragado a seu urso de pelúcia, Pooky.

Garfield é considerada a tirinha que mais rapidamente se espalhou pelo mundo. Estima-se que são cerca de 220 milhões de leitores diariamente em jornais espalhados pelos quatro cantos do globo. Em meio a diversos produtos com sua marca, séries animadas para TV e livros comemorativos, só havia uma mídia que o gato não alcançou: o cinema. Quer dizer, até agora.

Estreou no último fim-de-semana o longa-metragem “Garfield”. O personagem, entre humanos, cachorros e gatos de carne e osso, é digital. Por mais que teria sido melhor um filme inteiro na base da animação, o Garfield computadorizado é bem superior a outra tentativa, “Scooby-Doo”. A produção, apesar de infantil demais para o cinismo que é peculiar ao personagem, encanta e faz rir. Sem falar que Bill Murray está impagável na a voz do gato.

Seja em qual formato for, a verdade é que os ensinamentos de Garfield permeiam a minha vida. Eu também sou mais ele. Agora peço licença, pois vou amaldiçoar mais esta segunda-feira.

garfield.jpg
Bom dia, parceiro
Vivi Griswold às 09:57 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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