sexta-feira, 16 de julho de 2004

Chance para ser criança

Adolescente é mesmo um porre, não? Nessa fase desgraçada onde o cabelo não obedece, a pele fica um lixo e tudo na figura parece esquisito, ainda tem o mau humor para atrapalhar. Nos meus 15 anos, achava quase tudo “coisa de babaca” – e olha que, sinceramente, eu não era das criaturas mais chatas. Tinha bode de ficar com a família, achava festa de debutante um horror e mencionar a palavra “Disneylândia” me causava engulhos. Esse último emburramento, porém, passou à força.

Metade da minha escola juntou dinheiro, por essa época, e se mandou para a Disney. Eu cuspi no imperialismo, praguejei contra os vendidos, rendi homenagens ao Nordeste brasileiro e até decretei em público: “só piso nesse parquinho sofrível quando o cidadão vestido de Mickey criar asas”. Céus, como a gente faz papel ridículo na adolescência...

Pois relutei mesmo em visitar a terra da magia inventada por Seo Walt. Apesar de devorar os gibis de Donald, Tio Patinhas e companhia todo mês, nunca me imaginava passeando por entre a casa do Pateta ou o carrinho de bater do Pluto. Ah, que mico, hein? Imagine eu, uma garota engajada e tão esperta, me humilhar frente aos costumes e invenções americanóides? Nem pensar!

Felizmente, aplicou-se a mim a velha fórmula de cuspir pra cima e, mais tarde, o dejeto despencar de volta em plena testa. Caiu mesmo, mas foi ótimo.

Em 1994, uma amiga me convidou para passar alguns meses na casa da irmã dela, em Los Angeles. De férias da faculdade e sem nada interessante para fazer – já que ainda não tinha um emprego fixo, só bicos –, aceitei de bate-pronto. Fiz a mala, juntei a cuia e parti para a aventura de sobreviver por mais de dois meses com 500 dólares. Sem pagar estadia, daria certo.

A rotina era a maior farra. O apartamento da Elaine era na praia, pertinho da animada Manhattan Beach, e tranqüilo à beça. Era como viver dentro do “Barrados no Baile”, basicamente (mas sem nos preocuparmos com amigos intoxicados). O dia-a-dia era resumido em andar de bicicleta e patins, cair na piscina, assistir o Brasil faturar a Copa do Mundo pela tv – lembrem-se, não havia verba para estar mais perto que isso – e comer uma porção de tranqueiras. Também tinha a fase de ser mimada pela hospedeira, uma moça pra lá de amável.

Ela nos levava passear de carro, vez por outra, nas imediações. Fomos à Malibu, Venice Beach e até para a cidade de San Diego, uma delícia de lugar. Então, chegou o dia: Elaine queria nos levar para passar horas e horas... na Disney. Nem relutei, pra dizer a verdade. Depois de vários dias convivendo com o “american way of life”, a gente acaba se entregando um pouco, vou confessar a vocês.

Chegando ao parque, não conseguia parar de pensar em Clark Griswold, o homem que atravessou o país em “Férias Frustradas” para encontrar diversão em Walley World (se aquilo não é paródia da Disneyland, eu corto minha língua fora). Bastou pagar o ingresso e entrar na área, alguma coisa mudou aqui dentro. De 19 anos completos, passei a ter, se muito, 9.

A mistura de calor, música de alto-falante, cheiro de waffle e objetos coloridos por todo lado teve esse poder. Em questão de minutos, eu estava rindo pacas no brinquedo do Roger Rabbit. Mais uma hora, e já andava pelas ruas da Disney saltitando e escolhendo a próxima atração no mapa. Um pouco mais tarde, tirei foto atracada ao Mickey e com um sorriso de orelha a orelha.

O dia passou feito um tiro. Mas deu tempo de azucrinar americanos nas filas, comer hambúrguer, cantar (sem sucesso) o motorista do bondinho, voar pela montanha-russa e até assistir à parada e ao show “Fantasia” no lago.

Fico pensando que, se tivesse ido à Disneylândia quando pequena, não teria aproveitado muitos brinquedos ou entendido tudo. Se tivesse vencido o preconceito e ido aos 15 anos, teria curtido como todos os adolescentes – e se éramos capazes de armar zoeira tanto lá quanto no saguão do prédio ou na rua, por que gastar tanto? Foi bom ter entrado no mundo encantado de Walt Disney mais velha. Voltar no tempo e ter a chance de ser criança mais um pouco é um privilégio.

Disney.jpg
Eles sabem nos transportar ao mundo infantil...
Fla Wonka às 02:50 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold