quinta-feira, 15 de julho de 2004

Um Oscar para Daniel

Tudo o que poderia ser comentado sobre o filme “Cazuza – O Tempo Não Pára” já foi dito, e creio que eu não conseguiria acrescentar nada de novo à cobertura dada a ele – ou à figura do músico que o inspirou. As inúmeras matérias de jornais e Internet apontaram os acertos e erros da produção, bem como seus exageros, suas faltas, sua pressa. Portanto, chega de falar de Cazuza por enquanto. Agora é a vez de Daniel.

Enquanto o público da sala de cinema saía de olhos marejados pelo personagem, eu deixava a poltrona de queixo no chão pelo ator. Antes de assistir ao filme, tinha ouvido falar que a interpretação de Daniel Oliveira – ou melhor, a encarnação dele – fazia lembrar Val Kilmer, um Jim Morrison assustadoramente perfeito. Mas meu voto vai para o brasileiro.

Eu não conheci Jim Morrison. Aliás, nem do rosto dele eu me lembro muito (fato complicado ainda mais com a semelhança ao ator que o interpretou). Não gosto de The Doors e a trajetória do astro não me é familiar. Mas com Cazuza é diferente. Videoclipes estão por aí, assim como suas fotos. Lembro-me do Cazuza vivo e o dia de sua morte ainda está na minha cachola com todas as cores. Se houvesse um fator a dificultar a atuação de Daniel, seria essa proximidade com alguém ainda muito presente.

Imagine o que foi o peso de aceitar e compor um papel de alguém cujos amigos, conhecidos, amantes, fãs e familiares ainda estão por aí prontos a julgar. Pior do que tudo isso, ter a própria mãe do cara acompanhando cada gesto, cada respiro, tentando encontrar nele seu filho único morto prematuramente. É de pirar qualquer um, mas Daniel manteve a coragem na cova dos leões. A mesma coragem que é tão atribuída ao músico.

A partir disso, as semelhanças saltam aos olhos. Não apenas a semelhança física, mas os gestos e a fala. Vale lembrar que Daniel é mineiro e teve de aprender a não apenas falar com o carregado sotaque carioca, mas também a prender a língua um pouco, sibilando os “esses” como Cazuza fazia. Chega um momento em que o ator pode ficar parado quieto: você olha e identifica, ainda assim, o personagem.

Minha cena favorita do filme, aquela em que tive certeza do talento do ator, pode passar despercebida por sua falta de importância. Cazuza, internado em um hospital de Boston, mostra a nova letra que escreveu ao amigo Zeca. Ele lê os versos e explica como gostaria que a melodia fosse. É tão natural que arrepia.

O lance do Oscar não é brincadeira. Claro que há as barreiras culturais. Mas se o filme fosse americano, Daniel poderia já sonhar em sentir o peso do homenzinho dourado nas mãos. Além de sua interpretação magistral, ele teria dezenas de outros motivos para levar o prêmio. É só pensar na história da Academia.

Primeiro, eles adoram premiar atores que fazem pessoas reais. Vide Russel Crowe em “Uma Mente Brilhante” e Adrien Brody em “O Pianista”, só para citar casos mais recentes. Se morrer com sofrimento, então, melhor ainda. Depois, a transformação. Daniel ganhou 7 quilos para o Cazuza sarado e perdeu 14 para o Cazuza doente – isso no período das filmagens. Uai, não foi justificado assim o prêmio à bela Charlize Theron, que levou por “Monster”?

Não que eu seja baba-ovo de premiozinho ianque comprado não. É que faz tanto tempo que os brasileiros almejam trazer a estátua... Se for para acontecer, que seja para esse grande garoto.

cazuza2.jpg
Qual dos dois?
Vivi Griswold às 10:17 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold