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Um Oscar para Daniel Tudo o que poderia ser comentado sobre o filme “Cazuza – O Tempo Não Pára” já foi dito, e creio que eu não conseguiria acrescentar nada de novo à cobertura dada a ele – ou à figura do músico que o inspirou. As inúmeras matérias de jornais e Internet apontaram os acertos e erros da produção, bem como seus exageros, suas faltas, sua pressa. Portanto, chega de falar de Cazuza por enquanto. Agora é a vez de Daniel. Enquanto o público da sala de cinema saía de olhos marejados pelo personagem, eu deixava a poltrona de queixo no chão pelo ator. Antes de assistir ao filme, tinha ouvido falar que a interpretação de Daniel Oliveira – ou melhor, a encarnação dele – fazia lembrar Val Kilmer, um Jim Morrison assustadoramente perfeito. Mas meu voto vai para o brasileiro. Eu não conheci Jim Morrison. Aliás, nem do rosto dele eu me lembro muito (fato complicado ainda mais com a semelhança ao ator que o interpretou). Não gosto de The Doors e a trajetória do astro não me é familiar. Mas com Cazuza é diferente. Videoclipes estão por aí, assim como suas fotos. Lembro-me do Cazuza vivo e o dia de sua morte ainda está na minha cachola com todas as cores. Se houvesse um fator a dificultar a atuação de Daniel, seria essa proximidade com alguém ainda muito presente. Imagine o que foi o peso de aceitar e compor um papel de alguém cujos amigos, conhecidos, amantes, fãs e familiares ainda estão por aí prontos a julgar. Pior do que tudo isso, ter a própria mãe do cara acompanhando cada gesto, cada respiro, tentando encontrar nele seu filho único morto prematuramente. É de pirar qualquer um, mas Daniel manteve a coragem na cova dos leões. A mesma coragem que é tão atribuída ao músico. A partir disso, as semelhanças saltam aos olhos. Não apenas a semelhança física, mas os gestos e a fala. Vale lembrar que Daniel é mineiro e teve de aprender a não apenas falar com o carregado sotaque carioca, mas também a prender a língua um pouco, sibilando os “esses” como Cazuza fazia. Chega um momento em que o ator pode ficar parado quieto: você olha e identifica, ainda assim, o personagem. Minha cena favorita do filme, aquela em que tive certeza do talento do ator, pode passar despercebida por sua falta de importância. Cazuza, internado em um hospital de Boston, mostra a nova letra que escreveu ao amigo Zeca. Ele lê os versos e explica como gostaria que a melodia fosse. É tão natural que arrepia. O lance do Oscar não é brincadeira. Claro que há as barreiras culturais. Mas se o filme fosse americano, Daniel poderia já sonhar em sentir o peso do homenzinho dourado nas mãos. Além de sua interpretação magistral, ele teria dezenas de outros motivos para levar o prêmio. É só pensar na história da Academia. Primeiro, eles adoram premiar atores que fazem pessoas reais. Vide Russel Crowe em “Uma Mente Brilhante” e Adrien Brody em “O Pianista”, só para citar casos mais recentes. Se morrer com sofrimento, então, melhor ainda. Depois, a transformação. Daniel ganhou 7 quilos para o Cazuza sarado e perdeu 14 para o Cazuza doente – isso no período das filmagens. Uai, não foi justificado assim o prêmio à bela Charlize Theron, que levou por “Monster”? Não que eu seja baba-ovo de premiozinho ianque comprado não. É que faz tanto tempo que os brasileiros almejam trazer a estátua... Se for para acontecer, que seja para esse grande garoto. ![]() Qual dos dois? |
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