terça-feira, 13 de julho de 2004

Parabéns para menores

Tudo era milimetricamente planejado por mães, tias e avós conscienciosas de que só se faz X anos uma vez (troque X por todas as idades que você completou na vida). Os preparativos começavam dias, às vezes semanas antes – especialmente no meu tempo, quando “buffet infantil” era coisa de rico. Os doces cozinhando na panela e a carne louca para os sanduichinhos só podiam significar uma coisa: cheiro de aniversário no ar!

Eu tive uma relação de amor e ódio com festinhas infantis ao longo da minha (até agora breve) vida. Nos primórdios da infância, eu adorava – as minhas e as dos outros. Aniversário significava, caso fosse meu ou do meu irmão, uma semana de agito em casa: minha mãe preparava tudo com esmero, com a valiosa ajuda das tias.

Minha função principal era passar os brigadeiros no granulado. A mãe me deixava comer uma certa cota, que obviamente terminava antes da minha vontade. A solução era aplacar a voraz Catarina, então uma lombriga-bebê ensinada, com alguns docinhos extras, quando ninguém estava olhando.

Eu ganhava uma roupa especial para usar no dia; esperava os convidados toda faceira e, gradualmente, depositava os presentes ganhos sobre a cama, com o cuidado de enfiar os embrulhos desfeitos debaixo dela – segundo minha avó, isso garantiria mais presentes no ano seguinte.

Depois, tudo o que eu tinha a fazer era armar correrias e brincadeiras na garagem e na rua, comer um bocado e, finalmente, permanecer imóvel e constrangida atrás do bolo para o tão esperado “Parabéns a Você”, com o opcional do “Com-quem-será-que-a-Clarissa-vai-casar” engatado na seqüência.

Ao fim e ao cabo, as vizinhas, tias e convidadas não saíam sem um popular “pratinho”, preparado nos recipientes de papelão onde fora servido o bolo e contendo uma fatia da iguaria cercada por beijinhos e brigadeiros – tudo coberto com um guardanapo, que invariavelmente grudava na cobertura do bolo e a arrancava ao ser retirado, na degustação do dia seguinte.

Quando cresci mais um pouco, passei a achar aniversários infantis – agora dos primos mais novos – um saco e um mico. Um saco porque qualquer aborrecente odeia se ver enredado numa comemoração que não é da sua turma; um mico porque sempre apareciam, do nada, aquelas ameaçadoras tias que a gente só vê duas vezes por ano, apertando as bochechas alheias e falando “nossa, como você cresceu, está uma moça!”. Humpf.

Passada a fase da chatice hormonal e com Catarina cada vez maior, voltei a curtir festas de crianças. Isso porque aprendi a me divertir com as manifestações tipicamente suburbanas que pipocam nesses locais e, acima de tudo, percebi que tais comemorações são verdadeiras minas de ouro para criaturas esfomeadas como eu.

Afinal, onde mais eu teria a chance, com 26 primaveras completas, de comer mini-pães recheados com carne desfiada, docinhos enrolados como manda o figurino e coxinhas ou risoles fritos há umas duas décadas e requentados no microondas, ao som de crianças sapateando sobre brigadeiros caídos e gritando ensandecidamente, interrompido por eventuais balões estourando e petizes abrindo o berreiro por isso?

Ah! Nada como uma boa festinha infantil.

Clara McFly às 07:18 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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