segunda-feira, 12 de julho de 2004

73 a menos

Começo pedindo desculpas ao leitor pelo texto da vez. Normalmente buscamos expor no Garotas temas leves, divertidos e saudosos para despertarem sensações boas em quem se dá ao trabalho de entrar aqui a cada dia – mas hoje não. Hoje o artigo não foi baseado em sentimentos nobres, até porque a vida é feita de amor e fúria. E eu quero falar sobre o segundo item.

Mais um fim-de-semana se passou. Um fim-de-semana em plenas férias de julho, com a garotada puxando a barra da saia da mãe e agarrando a perna do pai para tentar garantir um dia de passeios e aventuras. Pelo menos aqui em São Paulo, terra gelada nessa época do ano e sem muita opção para divertir as crianças ao ar livre, uma saída é certa: o zoológico. Aposto que muitos pimpolhos tiveram destino certo nos últimos sábado e domingo.

E não é para menos. O zoológico da cidade tem a fama de ser um dos melhores do mundo. Fundado em 1958, ele está construído em uma área que beira os 830 mil metros quadrados de Mata Atlântica. Os visitantes podem conhecer os animais de pertinho – cerca de 3.200 deles –, caminhar pelos bosques, fazer piqueniques na sombra das árvores. Aliás, estima-se que já passaram por lá 70 milhões de pessoas. Uma delas fui eu.

A primeira vez que eu estive no complexo foi uma experiência incrível. Como devoradora voraz da enciclopédia “Os Bichos”, livrões pertencentes à estante da casa da minha avó, fiquei absolutamente maravilhada em presenciar tudo ao vivo. Porque uma coisa é ver a foto ou a imagem de um rinoceronte. Outra coisa é ver o rinoceronte de perto – tão de perto que até o cheiro dele chega até você.

Lembro-me, porém, de ter me assustado com o tamanho de algumas jaulas. Dava para reparar que, há duas décadas, a consciência ecológica do zôo não era das melhores. O lobo-guará, por exemplo, morava em um local escuro do tamanho de uma caixa de margarina. Isso me marcou porque eu sempre tive medo de lobos (“Chapeuzinho Vermelho”, lembra?) e, olhando para aquele pobre bichinho preso, o medo foi embora. Não entendia nadica de direito dos animais mas, de alguma forma, reparei que algo estava errado.

Voltei ao zoológico algumas vezes depois. Deu para reparar nas melhorias visíveis que o parque adotou. Os grandes felinos, leões e tigres, moram em um espaço enorme que até dificulta a visualização por parte das crianças, que permanecem o tempo todo berrando “cadê ele, mãe?”. Os macaco-pregos, primeiros habitantes que avistamos após a bilheteria, balançam felizes entre árvores, casas de palha e um lago bem grande. Tudo muito bonito e correto. Certo?

Hmmm, não. Desculpe, mas eu não gosto de zoológico. Até entendo a importância educacional de um parque daqueles – despertar (espero) o respeito aos animais nas crianças da cidade grande, sendo que muitas delas não viram sequer uma galinha solta. E sei que muitos daqueles animais nasceram e cresceram em cativeiro, e são até contentes vivendo assim. Com tudo isso em mente, ainda torço o nariz para o passeio por convicções particulares.

O “torcer o nariz” passou a “vontade de torcer pescoços” quando começaram a chegar notícias de mortes misteriosas dos animais em um curto espaço de tempo. O número chegou a vergonhosos 73. Setenta e três bichos tiveram um fim trágico em poucas semanas, muito provavelmente por envenenamento, mais provavelmente ainda por pessoas que possuem acesso a eles. Entre os coitadinhos, quatro dromedários, quatro micos-leões-dourados, três antas, três chimpanzés, um orangotango, um bisão e um elefante. Café pequeno.

Além do veredicto sobre as mortes estar longe ser finalizado, os culpados – se aparecerem – pegarão, no máximo, um ano de detenção em regime aberto. Isso mesmo, o caso é caracterizado como maus-tratos, um crime levezinho segundo nossa legislação.

Eu não vou mais ao zoológico. E só mudarei de opinião no dia em que arrumarem por lá uma jaula para o bicho homem, o mais irracional de todos.

Vivi Griswold às 10:24 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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