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Garota em reforma Reformar uma casa até que é fácil: se existem dois quartos pequenos, pode-se derrubar a parede e fazer um grande; se o banheiro tem um vitrozinho, dá para abrir o buraco e fazer uma janela maior; se o piso de carpete está mofado, nada impede de arrancar tudo e colocar outro revestimento. Consome dinheiro, é claro, e também muita poeira sendo respirada. Mas reformar gente é mais complicado. Quando uma casa é totalmente torta, podemos ir arrumando tudo de uma só vez. Quando uma pessoa é torta, porém, é preciso seguir com cautela – afinal, casas não têm aquele lance de auto-estima. E eu sempre fui uma garota que não veio muito certinha da fôrma. São os tais pequenos defeitos de fabricação. Aos sete anos de idade, minha mãe me levou no ortopedista e ele tirou a conclusão óbvia de que eu tinha pé chato. As solas me fazem pisar torto para dentro, o que não é muito normal. A única conseqüência disso até hoje foi um punhado de pares de sapatos jogados fora por conta do solado gasto de forma desigual. As dores nas costas, maldição que o médico especialista jogou no meu futuro, nunca chegaram. Mas na infância eu fui obrigada a usar aquelas horrendas botas ortopédicas. Não sei se o pior era ficar parecendo um soldado (quando se é uma meninininha miúda) ou ver as amigas usando lindas Melissinhas. Aliás, uma das minhas maiores frustrações era não poder usar a sandália colorida de plástico – isso eu consigo compensar atualmente, com vários pares. É trauma. Os anos com aquele chumbo nos pés ajudaram? Não sei. Continuo pisando torto. E costumo virar o pé ao andar com uma irritante freqüência. Outro item que eu tive de encarar por conta de uma má herança genética foi o par de óculos. O pior é que a miopia sempre foi um defeito anunciado: meu pai e minha mãe não possuem boa visão e costumavam me preparar para dias embaçados. Demorou, mas aconteceu. No cursinho reparei que não estava enxergando bem. Descobri meu 1,75 grau em cada olho míope. Não posso reclamar, pois o número nunca aumentou e hoje eu sou uma feliz consumidora de lentes de contato. Com tudo isso, minha seqüência de DNA ainda resolveu me sacanear feio na dentição. Na época dos dentes de leite, eles eram lindos e branquinhos e certinhos. Ao começarem a cair e nascer novamente, algo muito errado aconteceu. Acho que ao invés de 32 exemplares, fui premiada com uns 56. Ou, segundo os dentistas pelos quais passei, a culpa é da minha pequena boca (ah, vá). A opinião dos especialistas era de que meus pais deviam esperar eu crescer totalmente (o que não demorou muito) para depois colocar o temível... aparelho. Tão temível que, depois de crescida, me recusei totalmente a usar. Ter um sorriso metálico era mil vezes mais trágico do que ter um sorriso um pouco torto. Acontece que agora... mudei de opinião. Devido ao recém-adquirido “plano de saúde odontológico”, coisa que eu achava estar no patamar do chupa-cabra – diziam que existia, mas eu nunca havia visto –, decidi fazer uma reforma geral. Troquei as terríveis obturações metálicas por branquinhas e me submeti ao aparelho. Já estou ostentando essa maravilha há dois dias e tentando me acostumar. Minha dentista disse que ficou um charme e que vai, na próxima consulta, colocar borrachinhas pink. Gostei da idéia. Como toda reforma, de casa ou de gente, é preciso enfeiar um pouco para embelezar totalmente. Ana Paula Arósio, me aguarde daqui a 2 anos. Há!
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