quarta-feira, 30 de junho de 2004

Bisturi? Não, obrigada

Há nem tanto tempo assim, cirurgia plástica era um troço de outro mundo. Lembro-me de uma das muitas minisséries enlatadas assistidas por mim, empoleirada na cama da minha mãe, lá no sobrado onde vivi os gloriosos anos 80. A trama tratava de uma mulher que foi atirada aos crocodilos pelo marido. Acho que ele queria ficar com o seguro de vida ou algo assim. Ela sobrevive, faz um monte de cirurgias, muda de rosto (!) e volta para a vingança.

O argumento incrível parece não ser mais tão absurdo hoje. É mais fácil, aliás, trocar completamente sua cara do que sobreviver a jacarés cênicos. Daqui a pouco, estamos transplantando caras inteiras, feito o que acontece no ainda pouco crível “A Outra Face” (continuo afirmando que só um mestre como John Woo para fazer a gente permanecer duas horas sentada diante da tela a partir de uma premissa tão bizarra e pífia).

Nada mais em voga (como dizia-se na época em que usar tal expressão estava... em voga) do que cirurgias plásticas. Na telinha da máquina de fazer doudos, pipocam programas de “antes e depois”, mas o que outrora só cobria um tapa no visual da vítima – como uma mudança no penteado, uma maquiagem mais potente e uma renovada no guarda-roupa – agora acompanha um infiel do trauma de infância à mesa de operações, sem esquecer, é claro, do retorno triunfante do recém-transformado ao seio da sociedade.

Acho que esticar, puxar e melhorar (o que nem sempre acontece) é de direito de quem se sente marginalizado por causa de um narigão, de uns quilinhos a mais ou de marcas acentuadas do tempo. Claro que, quando vira obsessão, já é discutível. Mas de qualquer maneira, cada um tem que poder mexer no seu próprio corpinho como bem entender.

Eu, por exemplo, adoraria usar um sutiã maior e tiraria um pouco do nariz italiano – isso se o procedimento envolvesse, em vez de anestesia e bisturi, uma varinha de condão e uma fada mágica. Estou longe da perfeição, mas prefiro meu bom e velho corpinho a alguém me cortando. Fujo de intervenções cirúrgicas de qualquer natureza como o diabo da cruz.

Aliás, já dei instruções para, se um dia sofrer um acidente que me ponha desacordada, aproveitarem para pedir aos médicos que tirem um cisto de digitação do meu punho esquerdo e façam a extração dos quatro dentes do siso que venho adiando há anos. Por essa medida, dá para perceber que eu só iria atrás de uma cirurgia de necessidade discutível se tivesse nascido com um olho no meio da testa.

Mas a maioria dos plasticamente cirurgiados não nasceu assim. Querem apenas melhorar algum aspecto físico, rejuvenescer um pouco ou tentar uma vaga a atriz-modelo-e-apresentadora duplicando seu, digamos, air bag original de fábrica. A não ser os participantes do “I Want a Famous Face”, programa que estreou semana passada na MTV brazuca, produzido pela matriz norte-americana.

No reality-show, os infiéis passam por uma bateria de operações, mudanças de cabelo e figurino para, pasmem, ficar parecidos com seus ídolos. No primeiro episódio, dois gêmeos em plenas desfigurações hormonais causadas pela adolescência vão tentar ganhar o naipe do Brad Pitt. Parece um programa fictício, apresentado em algum episódio do “South Park”, mas não é.

E o que é pior: ao receber as informações sobre o programa, fui direto na foto que acompanhava a mensagem. Vi duas imagens: uma com dois adolescentes típicos, cheios de espinhas na cara e cabelo indefinido, e outra de dois rapazes que pareciam algo entre um provável boneco do David Beckhan, o Bon Jovi velho e a Lacraia. O resultado devia fazer as pessoas que vêem a foto, mesmo as que não sabem do que se trata, pensarem: “nossa, como eles parecem com o Brad Pitt, não?” – o que não aconteceu.

Na boa? Eu era mais o original. A despeito do que a incômoda fase da adolescência insiste em fazer parecer, uma hora os hormônios se acalmam e você vai ficando mais ajeitado – física e socialmente. Melhor esperar passar do que ficar parecendo... algo que não se parece com nada.

famousface.jpg
Vamos precisar de outro Jimmy...
Clara McFly às 05:39 PM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold