segunda-feira, 28 de junho de 2004

Molecagem em sentidos

Lembranças de nosso tempo de crianças alegres (e birrentas e arteiras) não ficam armazenadas apenas na cachola. Vez ou outra um fato da minha infância, até o mais obscuro, chega sem aviso incentivado por um gosto ou um toque. Pois a memória não seria tão completa sem a ajuda dos cinco sentidos essenciais – eles estão aí para que momentos simples e preciosos não escapem com o passar dos dias, meses e anos.

Como bem descreveu a Clara em seu último texto, um cheiro vindo de algum lugar é capaz de despertar uma série de sentimentos e cenas antes apagadas. Outro dia, por exemplo, fui atingida pelo aroma de pipoca doce de carrocinha. Instantaneamente, me veio à cabeça o sêo Gênio, um velhote de 105 anos que empurrava um carrinho repleto de guloseimas vendidas de porta em porta na rua da minha avó. Não se fazem mais pipocas doces como a do sêo Gênio. Nem velhotes como ele.

Tudo isso chegou à minha cabeça em questão de segundos – e por culpa de um vento que bateu na panela do pipoqueiro e veio de encontro a mim. Ainda bem tenho meus cinco (às vezes, seis) sentidos para manterem vivas algumas chaminhas da infância.

Audição

A frase “olha o carro!”
Até escrevi uma historinha usando a interjeição como título. Perdi as contas que quantas vezes disse ou ouvi tal frase durante as brincadeiras de rua, devidamente atrapalhadas pelos veículos que teimavam em passar no meio da farra. E, para o meu espanto, ainda ouço a sentença quando passeio pela parte tranqüila do bairro.

Panela de pressão
Agora que eu sou crescida não adquiri esse equipamento doméstico por um motivo simples: não sei mexer! E, nesse caso, o troço vira uma arma de alto poder de explosão. Mas o barulhinho da panela de pressão funcionando na casa da mamãe... Sempre foi canção ao meu ser faminto por feijão fresquinho.

O relógio de Dona Diva
Minha avó tem um daqueles relógios antigos de pêndulo e que marcam as horas com badaladas. Passei alguns apuros com ele na infância, pois morria de medo do som tétrico que ele fazia. Hoje, quando eu o escuto (sim, ele é imortal), lembro da época em que dormia lá e esperava chegar a meia-noite.

Paladar

Groselha
Tá certo que ainda se fabrica a tal groselha vitaminada Milani – mas eu me recuso a comprar. Apesar de ser apaixonada por aquele gostinho, ele é especial demais para eu ficar gastando à toa por aí. Prefiro tomar muito de vez em quando e me lembrar das tardes em que a mãe da minha amiga nos chamava para um lanche.

Bubaloo de tutti-frutti
O chiclete cor-de-rosa com creminho dentro não me deixa esquecer das filas intermináveis da cantina da escola que eu era obrigada a enfrentar se quisesse cravar os dentes em um X-Salada. Ao invés de troco, porém, pedia à tia tudo em Bubaloo de tutti-frutti, muito mais valioso do que qualquer moedinha, certo?

Cachorro-quente de rua
Sempre me pego babando em frente das carrocinhas de cachorro-quente da rua. Hoje eu sei que muitas delas não seguem as normas de higiene ou possuem produtos de boa procedência. Mas de vez em quando me permito esqueçer e relevar tudo isso: gasto um real e meio no sanduíche mais gostoso do universo.

Tato

Melancia
O elo entre a minha infância e a fruta favorita da Magali não é baseada em gosto. Porque a melancia poderia ter qualquer sabor – o importante era comer aquilo de tal forma que todo o suco começasse a escorrer pelos braços. Sentir o líquido geladinho descendo e, depois, ficar todo grudento era o máximo dos máximos.

Cama-de-gato
Uma das minhas brincadeiras infantis favoritas! Bastava um cordão e uma segunda pessoa que soubesse brincar também – pronto! No caso, a pessoa era a minha mãe, que me ensinou todos os truques da tal cama-de-gato. Faz anos que não brinco, mas tenho vontade cada vez que seguro um barbante.

Permanente
Lembro-me da ocasião em que minha já falecida avó Helena, dona de uns três fios de cabelo, resolveu fazer permanente. O negócio pegou tanto que os cachos ficaram mais parecidos com pequenas molas. E eu ficava brincando de colocar a mão e soltar, fazendo “póing!”. Queria ter podido fazer isso só mais uma vez.

Visão

Caipirinhas
Calma, não estou falando da bebida à base de pinga! Mas das meninas vestidas para as quadrilhas que estão pululando nessa época do ano. Ver uma delas é viajar para a época em que eu adorava colocar o chapéu de trança, o vestido de chita e a maquiagem exagerada para dançar nas festas juninas da escola.

Realejo
Em algumas feiras livres de bugigangas aqui na cidade grande é possível ainda encontrar essa figura tão enigmática para mim quando eu era criança. Achava que realejo era alguém saído do reino da magia, que mostrava o futuro da pessoa através de uma música e um periquito, ambos encantados.

Dente-de-leão
É preciso que alguém me segure caso eu encontre um dente-de-leão (ou careca-do-vovô) bem redondo e cheio, pedindo para ser assoprado. A vontade é semelhante a de apertar plástico bolha ou apertar um cravo no meio da testa – simplesmente não consigo resistir! É uma máquina do tempo gratuita e descomplicada.

Olfato

Desodorante Alfazema
Mais uma cortesia de Dona Diva, que toma um longo banho de desodorante Alfazema até para ir ao açougue da esquina. O cheiro forte ficou tão marcado na minha cabeça que, quando passei a fazer uso do produto, escolhi – adivinha? – o tal “álcoolzema”. Desisti. Aquilo entra na narina como éter, nunca vi igual!

Bacalhau
Apesar das minhas raízes portuguesas, não suporto bacalhau. Aliás, nem o cheiro! Mas como minha família resolve preparar quilos e quilos da comida apenas no Natal, o peixe seco e salgado virou um símbolo daquela época feliz da infância. É só sentir o aroma da bacalhoada, pronto, Papai Noel está aí!

Sabonete Phebo
Quer coisa mais de mãe do que guardar aquele pano fininho que envolve o sabonete Phebo na gaveta de lingerie? O resultado você já desconfia: não consigo mais sentir o cheiro sem me lembrar da cômoda esquecida que tínhamos na casa da minha infância. E tem de ser o amarelo e vermelho, não vale outro.

Vivi Griswold às 10:10 AM

Envie esta página a um amigo



No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold