quinta-feira, 24 de junho de 2004

O misterioso túmulo do amasso

Desde que me mudei para o novo apartamento, tenho dedicado pelo menos um dia da semana para caminhar pelo bairro. Nas minhas andanças, descobri uma loja que só vende embalagens, um depósito de roupas de grife a menos de 10 reais cada, um restaurante indiano vegetariano bom e barato, uma casa estranha que mais se parece museu ao ar livre. Mas de todos os mistérios de Pinheiros, o maior até agora foi o do túmulo do amasso.

Sempre trato de espiar comprido quando passo por um cemitério. Não acho locais assim feios ou assustadores – pelo contrário: vejo tranqüilidade e uma certa tristeza serena, além de ficar cheia de curiosidade por saber quem foram aquelas pessoas em vida. Hoje moro perto de um cemitério, o da Cardeal Arco Verde, e é cortesia de dois dos “moradores” de lá nossa história de hoje.

Há algum tempo, ao caminhar pela calçada do longo muro branco, espiei um túmulo que me deixou completamente intrigada. Do ponto onde eu estava dava para ver uma estátua de um homem nu em cima de uma mulher, erguendo sua cabeça em um beijo ávido. Quase tropecei com a visão e pensei “Caramba! Eles estão fazendo sécho em cima da cova!”.

Nos dias em que caminhei naquele trecho, me pegava olhando para o estranho túmulo e sua estátua erótica, tentando pensar em alguma teoria que explicasse o motivo da homenagem. Por que alguém da família optou pela escultura, no mínimo, estranha? Quem estava enterrado ali? Quando contei a história às meninas, elas zombaram de mim. Desacreditaram na minha narração e acharam que eu estava vendo coisas no cemitério – cá entre nós, um bom lugar para ver coisas.

Certa vez, porém, ao me trazer para casa, fiz Clara desacelerar o finado Deep Purple e olhar para o tal túmulo do amasso. Por sorte, ele é a primeira coisa que capta o olhar em um portãozinho menor, ao lado da entrada principal. Quando o viu, a loira deu um grito de “ai, meu Deus, é mesmo!” e eu fiquei satisfeita por ter limpado o meu nome na praça. A partir daí, tentamos imaginar teorias que justificassem o pega-lá-que-eu-pego-aqui perpétuo.

A melhor de todas sugeria que a morta era uma tia idosa, virgem e chata, além de rica e pão-dura. Os sobrinhos, que queriam a herança e torciam pela sua morte, descobriram que a idosa deixara todo seu dinheiro para o cão pequinês. Cegos de ódio e querendo se vingar da mulher – ela estar morta não bastava – a sobrinhada fez uma vaquinha e reuniu dinheiro para a estátua. Na lápide, um dizer ácido como “aí está o que ela nunca teve”.

Vendo que nossa imaginação passou a tomar rumos estranhos, eu e Clara decidimos ir tirar a dúvida visitando o tal túmulo. Chegando lá, duas surpresas. Para começar, o casal não estava, hã, acasalando. De outro ponto de vista, a coisa mudava um pouco: a mulher estava vestida, e o homem nu permanecia ao lado dela. Bem encostado, é verdade. Mas ao lado.

Ali estão Nino e Maria. Nino morreu em algum ano da década de 40 (faltam números na data). Maria, a esposa inconsolável, enterrou-o sob a frase “Ó Nino, meu esposo, meu guia e motivo eterno de minha saudade e de meu pranto”. Já Maria viveu mais quarenta anos. Na lápide dela, os dizeres “Aqui repousa Maria ao lado de seu inseparável esposo”.

Para nosso espanto, o túmulo do amasso escondia uma bela história de amor. Desfeito o mistério, prometemos voltar um dia ali para deixar flores aos pombinhos.

cemiterio.jpg
Vivi Griswold às 09:36 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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