|
||||||||||
|
||||||||||
Sem a sorte de um amor tranqüilo Agenor de Miranda Araújo Neto nasceu em 4 de abril de 1958, filho único de um casal de posses não lá muito enormes, mas também nada modestas. Foi uma criança quieta, porém a chegada da adolescência revelou um garoto rebelde. Debaixo da proteção da supermãe Lucinha, ele parecia um pirralho mimado, mas esfuziante. Assim é o astro da primeira hora do filme “Cazuza – O Tempo Não Pára”. Cheguei-me à salona escura ontem, para ver a produção, impulsionada pelo namorido – fã do Barão Vermelho. Entrei gostando de Cazuza e com a opinião de que seu papel no cenário musical dos 80 fora bem mais interessante que o de outro chamado “poeta do rock” da geração, o imortal (literalmente, já que não pára de lançar discos) Renato Russo. Saí da projeção com certeza disso. Alerto quem pretende pagar umas lascas numa sessão do filme: a produção não é uma cinebiografia. Se “Frida”, por exemplo, é como uma fotografia da vida da pintora mexicana – para citar uma peça do gênero -, “Cazuza” é mais uma, digamos, ilustração. Claro, baseada na história do cantor e compositor – mas com passagens e roteiro bem romanceados. Aceito esse ponto, é um filme bem bacana. Descobri que tudo aconteceu muito rápido na vida desse cara autêntico – até demais, tanto que vivia desafiando qualquer atitude que fosse razoável e socialmente aceitável. Toda a energia de Cazuza parecia ser dirigida a uma vida sem limites, regada ao trinômio hoje clichê de sexo, drogas e rock’n’roll. Essa fase rendeu algumas das letras mais poderosas do rock da época – e que ainda têm punch. Cazuza gravou três discos com o Barão, que conheceu através do Léo Jaime e, no auge da banda, começou a se sentir infeliz com as limitações impostas por ser o vocal de uma “banda de rock”. Ele queria cantar Cartola e outras vertentes da música brasileira. O que fez? Se mandou para a carreira-solo, em julho de 1985 – poucos meses depois da brilhante apresentação no Rock in Rio (que nessa época ainda era no... Rio). Dois anos depois, ele já tinha dois álbuns como artista solo na bagagem – e a consciência da doença que contraíra. Talvez por isso já tivesse se transformado numa pessoa mais madura – sem, no entanto, abandonar o autêntico inconformismo. É impressionante, ao menos no filme, como o rebelde Cazuza passa por tal mudança rápido. Acredito que tenha sido assim mesmo, porque tudo na vida dele foi assim, depressa demais. Inclusive a chegada da indesejada: Cazuza morreu com 32 anos, depois de assumir muito corajosamente sua condição (eu não disse que, a despeito da personalidade mais tranqüila dos anos derradeiros, a autenticidade permanecera?). No show que ele fez no Canecão, já muitíssimo afetado pelo HIV, cantou a bela “O Tempo Não Pára”, minha preferida do seu extenso e variado repertório. Essa gravação ao vivo ficou famosa e ainda é muito executada nas rádios. É aquela em que ele termina com um pontual “obrigado” – e é também a canção que embala o trecho mais tocante do filme. Afinal, durante a apresentação, Cazuza já estava num estado que o fazia tomar oxigênio no palco, durante o solo da música. Mas continuava lá. Em julho de 1990, o meteórico pirralho mimado e esfuziante encerrou sua participação por aqui – já como um verdadeiro poeta (e não só do rock). A mesma energia e coragem que alimentava a rebeldia da juventude foi usada por Cazuza para enfrentar o processo irreversível e implacável de sua morte anunciada. Para nós, sobrou uma produção tão eclética, crua e verdadeira que é impossível não gostar de pelo menos uma música – da pop “Maior Abandonado” à chocante “Só as Mães São Felizes”, passando pela delicada “Eu Preciso Dizer que Te Amo” e a matadora “O Tempo Não Pára”. Acho que Agenor (ele não gostava muito do nome, até descobrir que essa também era a graça de Cartola, seu ídolo) sabia disso como poucas pessoas.
![]() Isso é que é amor de mãe: Lucinha preserva a memória do filho com a Sociedade Viva Cazuza
|
![]() |
|||||||||
![]() |
||||||||||