quarta-feira, 23 de junho de 2004

E.E.P.G., saudades de você

Em cada uma das edições diárias de telejornais sensacionalistas e sangrentos da tevê brasileira há histórias horríveis sobre alguma escola pública. Ao que parece, os ambientes de ensino gratuito viraram campos de batalha ou point de tráfico de drogas – principalmente aqueles localizados na periferia. Pena. Além de sofrerem com a violência quando deveriam estar aprendendo, os alunos de hoje não vão sentir saudades de sua E.E.P.G. como eu sinto da minha.

Tinha seis para sete primaveras quando fui matriculada na Escola Estadual de Primeiro Grau Marechal Bittencourt. Eu não via a hora de dar início à minha vida de estudante, uma vez que as atividades anteriores às da primeira séria estavam mais para brincadeiras de creche do que para algum templo do aprendizado. A partir dali, eu me tornara uma aluna. Uma futura profissional.

No comando da 1ª série A da escola, naquele ano de 1984, estava a sorridente e rechonchuda tia Daizil. Como eu era a menor da turma e uma das mais caprichosas, a professora logo me adotou como “queridinha”. Acabava, portanto, sendo a primeira da fila para entrar na sala de aula, ação que fazia de mãos dadas com Daizil. Sentava na frente e era tão aplicada quanto uma aluna da primeira série pode ser.

Para as aulas, usava-se a cartilha “Caminho Suave” que eu simplesmente amava. Tá certo que ficava com ódio da página da letra V, ilustrada pela vaquinha Vivi, mas de resto o livro era simplesmente uma delícia. A cada tarefa feita corretamente, tia Daizil colava nas folhas uma estrelinha dourada feita de papel espelho. Eu passei a colecionar os pequeninos astros de mentira.

Em dado dia da semana, era obrigatório cantar o Hino Nacional, em fila, com mão no coração, enquanto a bandeira era hasteada. Aposto que muitos alunos desse novo século torceriam o nariz e achariam a prática quase militar. Mas eu digo que foi bom. Aprendi a cantar a canção-e-símbolo-nacional, mesmo com aquele monte de virunduns. E, de alguma forma, aprendi também que aquilo era para ser respeitado. Só não captava o motivo da proibição de se bater palmas após a execução. Pôxa, é uma música tão bonita!

Outra recordação nítida que eu tenho dos tempos de E.E.P.G. era a hora da merenda. Não estou falando do sanduíche de mortadela que recebia na escola particular que passei a freqüentar em seguida – lá na escola pública tinha refeição completa. Arroz, feijão, macarrão. Cozinheiras de avental mexendo panelas borbulhantes enormes e servindo cada um dos pratos. Pratos de plástico azul, se não me falha a memória.

Falando na memória, lembrei-me de uma ocasião específica. Certa vez, quando o sinal tocou, a professora pediu para que eu ficasse um pouquinho mais. Voltei a sentar na carteira e esperei toda a enxurrada de crianças deixarem a sala de aula. Quando estávamos a sós, tia Daizil me chamou até a lousa e me disse que desconfiava que eu já sabia escrever. Fiquei completamente encabulada, pois isso era segredo.

Ela me pediu então para escrever “casa”. Escrevi. Pediu para eu escrever “carro”. Escrevi. Pediu para eu escrever “cachorro”. Eu virei e perguntei “é com x ou com ch?”. Ela me disse “com o que você souber”. Escrevi com ch. Ela me deu os parabéns.

Um dia de glória custava tão pouco na E.E.P.G.!

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Vivi Griswold às 09:06 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold