terça-feira, 22 de junho de 2004

Só para iniciados

Imagine você tentando ser aceito em um clube fechado onde é permitida a entrada apenas para sócios com carteirinhas e iniciados – principalmente os que entendem a língua estranha e os termos incompreensíveis que são falados durante encontros secretos. Pois é assim que eu me sinto ao abrir o jornal e ler as matérias sobre a São Paulo Fashion Week: uma intrusa na festa dos outros.

E olha que eu gosto de moda e até que entendo um pouco do chamado "mundinho". Como jornalista – sim, eu tenho essa profissão-fachada quando não estou dando uma de super-heroína pelos prédios da cidade – já tive a missão de cobrir os vários dias do evento. Isso incluía não apenas desvendar os desfiles, mas bater na porta do clubinho e dar uma espiada.

Uma coisa é certa: fiz dezenas de matérias sobre moda. Mas jamais meu texto soou tão pretensioso quanto a cobertura que acompanhei (bem, ao menos tentei acompanhar) nas últimas edições do festival da afetação. Pois eu acho que a função de um jornalista é explicar o que viu a um público geral que não é necessariamente especialista naquele assunto e fazê-lo se interessar por algo que, às vezes, não iria captar sua atenção de outra forma.

Então me explica o que andaram tomando os redatores dos textos que eu li. Alguns, auto-intitulados fashionistas, chegam a extrapolar o bom senso, dar punhaladas no bom texto e asfixiar o bom português. Veja bem: jamais serei uma defensora ávida da não-utilização de termos em inglês – acho que nosso idioma é tão rico e belo especialmente por adotar outras línguas e transformá-las em expressões também nacionais.

Mas esse povo extrapola. Uma famosa jornalista – ups, fashionista – de São Paulo se recusa a falar "camiseta", por exemplo. Diz "t-shirt". No mesmo balaio, não há mais trabalhos em "retalhos", mas "patchwork". Também a "mistura" de estampas cedeu lugar ao "crash" de estampas. Gostou? Então dê uma olhada em 10 frases que eu garimpei na cobertura da última edição da SPFW pelos jornais e pela Internet. É tudo verdade.

1) "Triton girl é wannabe Vivienne"
Isso é o título de um pequeno artigo. Para entender, o leitor precisaria saber que "girl" é "garota", que "wannabe" é algo como "aspirante" e que Vivienne é Vivienne Westwood, importante estilista britânica. Se era só para pegar amiguinhos entendidos, a jornalista poderia ter distribuído o artigo mimeografado entre os seus.

2) "É um look bem dasluish"
Eis um estilista explicando sua coleção. Bem, estilistas podem falar as maiores barbaridades – afinal, eles são os artistas. Cabe ao jornalista, em seguida, explicar o que o cara quis dizer com a pérola. No caso, porém, o leitor ficou novamente na dúvida sobre a verdadeira intenção do profissional da moda.

3) "Depois da ferveção fashion da Bienal, a after-party da Cavalera"
Lendo a frase, dá para entender perfeitamente o sentido. Mas céus, redação de moda precisa ser sempre tão afetada? Desculpe, mas não conheço ninguém que fale dessa forma na vida real. Só ouço expressões como "ferveção" sendo ditas nas declarações colhidas de drag-queens durante paradas gays. E olhe lá!

4) "O estilista propõe um cruzamento da Bahia com Beirute"
Tão ruim quanto jornalista afetada é jornalista que tenta dar uma explicação plausível sobre um desfile. Não funciona! Explicar um desfile é como explicar um quadro – trata-se de algo subjetivo. O intuito principal não é vender roupa, é promover um espetáculo. Fica difícil rotular. E, quando acontece, saem coisas assim.

5) "A minha mulher é enlouquecidamente fora do contexto"
Ouvir declarações de estilistas é o que há de engraçado. Primeiro, eles dizem "a minha mulher" ou "o meu homem". Não, os caras não estão se referindo à parceira ou parceiro, mas ao público-alvo de sua coleção. Segundo, sempre completam a frase com a mesma coisa, como "é moderna" ou "é solta e independente".

6) "Burlesco é tendência"
Sabe o que é burlesco? Pois é melhor saber. Afinal, segundo essa estupenda manchete, a coisa é tendência. Parem as máquinas! Bem, segundo o Aurélio, "burlesco" é "cômico", "caricato". Ah, agora vai me dizer que comédia está na moda? Ainda bem que temos profissionais assim, que nos avisam de tanta novidade.

7) "Acho-o supercênico. Para mim, o Lino já transcendeu John Galliano"
Essa pérola saiu da boca de uma atriz global que deveria estar desfilando pelo evento mais do que as próprias modelos. O melhor é o termo afetado "supercênico", em vez de "teatral" – normal demais, talvez. Também adoro a intimidade com o tal Lino. Villaventura, eu presumo. E John Galliano? É de comer?

8) "Afinal, não-amigos, lurex e absurdinhos já deixaram de ser novidade"
Alguém consegue por favor me traduzir o que exatamente tenta demonstrar a frase acima? Eu juro que não entendi – mesmo depois de vários minutos olhando para esse monte de palavras. Separadas, elas não fazem muito sentido (o que é um "absurdinho"?). Juntas, parecem mais um samba do fashionista doido.

9) "Cultura zen e pescadores solitários levaram o estilista a usar estampas"
Outro exemplo de redator que tenta achar sentido para a coleção. Na minha experiência, contudo, arrisco dizer que a frase foi retirada de um típico press-release – resuminho dado aos jornalistas na entrada dos desfiles e que explica a influência das roupas, o material usado, o que o cara quis passar, etc.

10) "E o trench-coat, hein?"
Outro título. Na verdade, uma pergunta bem pertinente. Se um estranho chegasse até você e o indagasse com tal questão, de um modo sério, o que você responderia? Ao que parece, o tal do "trench-coat" foi muito usado nesta edição. É melhor descobrir o que é antes que o próximo Fashion Week me pegue de surpresa.

Vivi Griswold às 10:21 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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