sexta-feira, 18 de junho de 2004

Hoje, não

Há uma série de perguntas que são feitas com certa recorrência a minha pequena e magrela pessoa – “você não acha ótimo poder comer de tudo e não engordar?”, “mas você pesa a mesma coisa desde 17 anos?” e “você não sai voando com a ventania?” são algumas delas. Outra que tenho ouvido bastante desde que começamos esse hercúleo projeto de escrever todo dia aqui no ex-site rosado é “mas não falta assunto?”

Sempre digo que “não, imagina!”, abrindo um sorriso mezzo confiante, mezzo misterioso. E me convenço das palavras que escapuliram quase por si só da boca pensando: se a gente prestar bastante atenção nas coisas diárias da vida, vemos que há assunto para mais de metro, esperando por ganhar um texto.

Na TV, as bizarrices são quase infindáveis. No som, músicas de ontem e de hoje disputam espaço entre nossa preferência. No cinema, a cada final de semana há um punhado de estréias cheias de novidades para se comentar. Na literatura, a estante cheia me garante tema a granel. Na memória, o exercício diário da lembrança sempre acrescenta algo a dizer.

Mas, no fundo mais profundo, morro de medo de sofrer o que as pessoas que trabalham inventando história chamam de “bloqueio criativo”. Eu achava que era papo furado de gente metida a estrela. No entanto, começo a desconfiar que pode ser verdade.

Desde que o Garotas foi ao ar, foram catorze meses sem sair de cima. Do teclado, claro. Todo santo e orado dia (útil, que ninguém é de ferro) comparecemos cada uma com um post quentinho, saído de cacholas com grande tendência a tagarelice – virtual ou real. E esse exercício diário tem sido uma delícia das mais deliciosas.

No entanto, confesso que já fiquei uns pares de vezes sentada por minutos diante da tela vazia do Word – aquele branco absoluto, acachapante e incômodo -, pensando no que iria escrever aquele dia. E toca a cavar assunto, passeando mentalmente pelas últimas peças lidas, vistas ou ouvidas; pelas mais recentes aventuras cotidianas ou pelas figurinhas indeléveis na memória.

Alguma coisa tem que sair. Tenho uma vantagem, sendo a última a publicar no dia: leio os textos das comparsas para ganhar alguma inspiração. Mas mesmo as verves de Flá e Vivi nem sempre bastam. O relógio segue implacável, a tarde cai. E eu começo a ficar nervosa.

O problema complica quando nada parece bacana ou fluente o suficiente para ganhar um espaço no site. Um princípio de pânico é sentido. “Meu Deus, sobre o que vou escrever hoje?”, penso mal contendo a agonia nascente. Lembro-me das pessoas que perguntam: “mas não falta assunto para escrever todo dia?”, e eu posando de bacana: “não, imagina!”.

Pensando bem, acho que eu estava certa. Tudo, absolutamente tudo, é material em potencial para virar um texto – até mesmo uma crise de inspiração. Talvez no futuro eu sofra um completo bloqueio criativo ou algo que o valha, e falte assunto para segurar o rojão de escrever todo dia. Mas hoje, não.


Clara McFly às 07:12 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold