sexta-feira, 18 de junho de 2004

Quintal versus sacada

Durante toda a minha infância, morei em casa. A última, um sobrado suburbano com direito à garagem ampla para dar festinhas, quintal com lajota vermelha e alguns metros quadrados de grama, quartinho da bagunça nos fundos, portão de ferro dando para a rua. Só não tive laje, porque mamãe sempre foi anti-reforma (lê-se anti-poeira e anti-barulho). Depois, com 16 anos, mudei para um apartamento – e tive de me acostumar a viver nessas residências nas alturas.

No começo não foi tão difícil. Afinal, nosso apê era bonito (sem carpete, olha que maravilha), localizado em um bairro legal, com um quarto só para mim e com uma vista linda – o que é bem raro em cidades. Abrir a janela e olhar para um imenso campo de golfe me afastou das coisas chatas de uma mudança drástica. Porque é drástico sair de uma casa, por menor e mais caída que ela seja, e se meter em um apartamento.

A primeira coisa a ser notada é espaço: uma vez dividindo um dos 10 andares de um prédio com mais três famílias, você nota que os limites ficaram menores . Todas as coisas que você trouxe da casa não vão caber na nova moradia, e se faz necessária uma reciclagem de objetos, roupas, móveis. Trombar com irmãos algumas vezes por dia também acaba sendo mais comum. Outra coisa é precisar descer até o térreo para respirar um pouco de ar.

O que eu mais tive – e tenho – dificuldade em aceitar é o processo de se viver em uma comunidade. Sua casa é seu reino. Se você quiser pintar a fachada de roxo com bolinhas amarelas, pode. Se você quiser pregar um quadro às cinco da manhã, pode. Se você quiser criar um avestruz de estimação, pode. Já em apartamento a coisa muda de figura. E como muda!

Colocar um vaso ou pendurar um quadro no hall do seu andar, ao lado da porta da sua unidade, pode virar uma batalha com o síndico. Ah, o síndico. Aquele ser que, em muitos casos, você nem conhece a cara e mete o nariz em tudo o que você deve ou não fazer. Síndicos não merecem o meu respeito. Pelo menos todos os que conheci.

Outro dia, por exemplo, meu apartamento foi invadido por um síndico, um pedreiro, uma supervisora e mais algumas pessoas não-identificadas pois, do lado de fora do prédio, constataram um vazamento no meu banheiro. "Ué, você não viu?", me perguntaram. Eu disse que não, mas gostaria de ter respondido "não, eu não tenho tempo de ficar olhando para cima sentando num banco o dia todo". O motivo de tanta algazarra? Meu chuveiro estava com um dos seus míseros jatinhos de água voltados para fora da janela. Não pode. Chover, pode.

Quando o sêo Jura veio colocar os armários da cozinha foi outra luta. Além de sobreviver ao clone de Marlene Mattos/Roque que não regulava bem da cabeça, tive de agüentar a ladainha do síndico. Isso porque o marceneiro marcava um horário X para começar o trabalho e só chegava em X + 5. Aí, é claro que o serviço acabava ultrapassando a marca das 18h, tempo limite para reformas. O interfone, então, tocava de 10 em 10 minutos – não por causa do barulho (que não existia), mas pelo simples fato de haver um marceneiro aqui.

Mas justiça seja feita: há coisas boas de se viver em apartamentos. Adoro estar pertinho do céu – ainda mais agora, no 14º andar. Tenho uma sacada bem avantajada onde pude fazer até uma pequena horta. De lá, posso olhar para as estrelas ou para a cidade – imediatamente embaixo, a Teodoro Sampaio. À direita, vejo a Faria Lima e, à esquerda, consigo enxergar até o prédio da Editora Abril, lá na Marginal Pinheiros. É como uma página do guia de ruas de São Paulo em 3D.

Fora, é claro, a mordomia de deixar entrar no seu mundo só quem é autorizado. Não há testemunhas de Jeová ou vendedores da Barsa batendo na sua porta nos momentos mais inconvenientes. E é fácil dispensar alguém pela mocinha séria que opera o interfone lá na portaria. Também há segurança. E bem menos barulho – seja da gritaria por conta da pelada na rua, seja dos carros passando em alta velocidade. Gosto da sensação de reclusão, de um universo à parte.

Meu apartamento ainda é meu reino. Um reino com horário para martelar, é verdade. Mesmo assim, um reino.

ape.jpg
Não é um quintal, mas é legal
Vivi Griswold às 10:09 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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