quinta-feira, 17 de junho de 2004

O mundo vegetal

Já reparou como existem algumas coisas que fazem você levar um tempo até perceber que gosta? Aconteceu comigo um bocado de vezes – especialmente depois que me mudei da casa da mamãe. Percebi, por exemplo, que gosto de limpeza – apesar de ser desorganizada por natureza. Também notei que adoro plantas – embora deixasse todas morrerem lá na minha antiga casa, quando a mamãe viajava e me deixava na incumbência de regá-las.

Estou longe de ser uma expert no assunto. Aliás, logo que inaugurei novo endereço, comecei a suspeitar que tinha um toque de Midas às avessas para cuidar dos vasinhos. Ao notar o quanto uma casa sem plantas parecia árida e desagradável, adquiri meia-dúzia de espécies vegetais para o meu próprio lar. E pastei nas mãos (ou nos galhinhos) delas.

As danadas simplesmente não queriam viver, apesar dos meus cuidados de pôr no sol (de vez em nunca) e regar (quase todo dia, ou quando sobrava tempo – ou seja, muito ou pouco demais). Primeiramente achei que tinha escolhido logo uma leva de vegetais suicidas. Depois percebi que estava afogando algumas coitadas e deixando outras secarem à míngua.

Comecei a prestar mais atenção na freqüência com que eu regava, comprei um adubo e até passei a conversar com as plantas, para completa diversão do namorido, que ria às pampas quando me pegava trocando idéias com as violetas e kalanchoes que vivem por aqui. Decidi por estender os dedos de prosa só quando ele não estava.

Também passei a me informar melhor sobre as preferências das espécies, se elas eram “de sol”, “de sombra” ou “de meia-luz”, como se diz por aí. E vi que nenhuma das kalanchoes ia viver muito mesmo, se não tomassem sol pleno. Nesse meio tempo, trouxe para casa mais dois vasos grandes dessa espécie, mas isso foi bem numa semana corrida por demais, em que não parei em casa.

Resultado? As pobres ficaram a semana toda só dentro de casa, longe do alcance do astro-rei e bem perto da lâmpada da sala. Mas, para minha surpresa, não murcharam – o que me levou a concluir que as ingênuas flores foram enganadas pela luz artificial provida por sêo Osram. Compartilhei a teoria com o namorido e alertei-o para não falar a respeito na frente das engambeladas kalanchoes. Afinal, se elas percebessem o golpe, podiam voltar atrás e se desfolhar inteiras...

No fim das contas, acertei a mão: já cuido bem das kalanchoes, dos crisântemos, das marias-sem-vergonha, dos cactos, da árvore da felicidade, da comigo-ninguém-pode e de outras flores e folhagens que vivem aqui comigo. Até plantei manjericão e pimenta, desde a semente, e o primeiro está de tal tamanho que virou condimento de umas pizzas e molhos preparados por mim.

Agora, o grande desafio vai ser a orquídea-sapatinho, presente da dona Sandra trazido no último final de semana. Quando minha mãe se casou e ganhou sua própria casa, esse foi o primeiro vaso que minha avó deu para ela. Espero saber honrar a tradição familiar.


Clara McFly às 06:55 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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