quinta-feira, 17 de junho de 2004

O mestre dos magos

Diretor de cinema, por definição, é um sujeito pirado e de muita sorte. Sorte e ousadia, porque convencer 400 pessoas alojadas em uma sala escura de que sua obra é especial, e não mais uma bobagem cinematográfica, é tarefa para poucos. Existiu um membro dessa classe capaz não só de abismar multidões, mas também de nos fazer crer que ele era um verdadeiro mágico. Alfred Hitchcock nunca tirou coelhos da cartola, que eu saiba – fez, sim, muito melhor do que isso.

Tio Hitch, na verdade, não era só um habilidoso contador de casos. Era um perito em técnica de cinema. Sabia como funcionava todo e qualquer equipamento de seu set de filmagem e, por isso mesmo, como extrair o melhor efeito deles. Foi assim que seus filmes ganharam multidões: não era apenas uma questão de bom roteiro, mas também de apresentá-lo em um formato perfeito. Originalidade era o lema de Alfred.

O homem não poderia ter nascido em outra data: 13 de agosto de 1899 (tem o espírito do “cachorro louco” ou não?). Trinta anos depois, ele já era conhecido em altas rodas de cinema inglês, considerado o jovem diretor mais promissor e bem pago do mercado. Não é isso, porém, que importa quando se botam os olhos sobre os filmes do meu diretor predileto. Mesmo que você aí do outro lado não seja um admirador (ainda), tenho certeza que o estilo de Hitchcock pode te conquistar.

Para quem presta atenção em detalhes de cenário ou em cortes da edição, o estilo do gorducho senhor fica ainda mais apetitoso. Mas quem não dá a menor pelota para esse tipo de fixação –cine-nerd também pode se divertir nas obras. Uns morrem de medo dos acontecimentos, outros acham tudo aquilo balela, um exagero. É mesmo exagerando! Daí a graça: parece que estamos em um sonho, acompanhando situações bizarras mas perfeitamente possíveis de acontecer. Ou você não acredita que seu vizinho de fundo pode dar cabo da própria esposa?

É isso o que acontece em “Janela Indiscreta” (1954), um dos melhores momentos de Alfred H. O fotógrafo interpretado por James Stewart está entrevado em casa com a perna engessada. Pela janela, ele observa mexeriqueiramente tudo o que se passa com a vizinhança. Até que sua pseudo-namorada (Grace Kelly, mais linda do que em toda a vida) sugere: o homem que vive no prédio em frente está com comportamento suspeito e parece ter passado a esposa desta para uma melhor. O que poderia ser uma história boba, de telefilme safado exibido no Corujão, virou um clássico. Na minha opinião, por causa da mão do diretor.

É só reparar no clima de terror e agonia que vai crescendo durante a trama. O aleijado descrente passa a ficar atormentado, a garota rica e fútil mostra-se corajosa e leal. Tudo acontece aos poucos, e quando você vê está mordendo a almofada de desespero. Poucos conseguem fazer isso com o público, eu acho. O bom é que Hitchcock não pára por aí. Se quiser suar frio e ter uma noite de cinema com C maiúsculo, sugiro que vá buscar essas pérolas. Andam em baixa nas locadoras, mas isso é para quem não sabe ver.

Psicose (1960)
Vou dizer: se tivesse que tomar banho todo dia em uma banheira com cortina, contrataria um guarda-costas para a porta do banheiro. A famosa história de Norman Bates não se tornou um marco do cine-terror à toa. Cada passo ou rangido em cena arrepia os cabelos da nuca até no mais relaxado espectador. Depois de saber que o sangue a correr pelo ralo era chocolate, confesso que o medo passou um pouco. Mesmo assim, o filme é de matar. Literalmente!

Um Corpo que Cai (1958)
Como todo filme de AF, fica bem melhor no cinema. Como não há jeito de exibirem filmes antigões fora de eventos especiais, encare na telinha mesmo. James Stewart (era o “muso” de Hitch, assim como as meigas loiras platinadas) é chamado para desvendar o mistério em torno de uma senhora suicida, mas acaba entrando numa senhora armação. Diretores que filmam suspense hoje têm muito o que aprender vendo a fita.

O Homem que Sabia Demais (1956)
Diferente dos filmes que deram fama ao “mestre do suspense”, este aposta é na trama bem amarrada. Aliás, roteiros costurados com primor, eu acho, contam tantos pontos a favor do diretor quanto as punhaladas em si. Na exótica Casablanca, James Stewart (ele de novo, aí tinha...) e sua simpática esposa viajam junto com o filho. Em dada hora, porém, o menino toma chá de sumiço. O quê, como, quando e onde, são coisas a se descobrir aos poucos. História intrincada é apelido.

Festim Diabólico (1948)
Aqui não tenho como disfarçar a inveja. Se um dia eu chegar ao céu e me perguntarem o que eu sonhava ter feito na vida, eu diria: “acompanhar Alfred Hitchcock durante a filmagem de ‘Festim Diabólico’”. Uma das mais criativas películas já rodadas, conta a saga vespertina de dois jovens malucões que decidem matar um amigo, guardá-lo no baú e dar uma festa (com a família do rapaz presente) a fim de... bom, de provar que podem. Eu digo UMA película, porque foi assim que ela nasceu. Louco de pedrinha, Hitchcock achou que o filme ganharia muito se não houvessem cortes. Ou seja: ele filma a cena ininterruptamente, apenas mirando em um ponto neutro para trocar os rolos de filme. Foram dias de ensaio até que os atores fizessem tudo sem errar. Foram meses de planejamento arquitentando como passar câmeras enormes por meio de um cenário cheio de mesinhas e cadeiras. Foram anos, depois disso tudo, colhendo louros pelo trabalho incrível. Que, aliás, só um mestre dos mestres imaginaria.

Rope.jpg
Além de tudo, o gordinho era adorável nos bastidores
* * * * * *

Sangue com valor

Hitchcock podia usar chocolate para fingir de sangue, mas os hospitais, infelizmente, não. Doar sangue é um dos atos que demonstram mais amor ao próximo hoje em dia. Nós aqui do Garotas estamos em campanha. E você pode e dever vir mostrar seu amor conosco!

Fla Wonka às 02:58 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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