quinta-feira, 17 de junho de 2004

Tra-la-lá

"Parece que nos anos 60 tinha muito tóchico", diria sabiamente a Mirtes. E é verdade. A prova definitiva do gosto geral por substâncias alucinógenas, porém, não são as músicas de rock progressivo com 10 minutos só de solo de teclado, ou os cabeludos tomando banho de lama em Woodstock, ou os Beatles cantando sobre uma garota chamada Lucy que passeava num céu de diamantes. A evidência maior do uso de drogas naqueles anos de paz-e-amor é o programa dos Banana Splits!

O nome original da belezura é "The Banana Splits Adventure Hour". Não está conseguindo lembrar? Vou refrescar sua memória – a minha já foi refrescada pelo canal Boomerang, uma pérola da tevê por assinatura que só apresenta desenhos antigos. Contudo, a atração não é desenho. Na tentativa de fazer algo em carne e osso (e pelúcia), os tios William Hanna e Joseph Barbera, depois de baterem com suas cabeças repetidas vezes na parede, tiveram a idéia desse programa, que foi ao ar pela primeira vez em 1968.

As estrelas? Quatro atores sem-rosto (porém corajosos) devidamente fantasiados de cachorro, leão, macaco e elefante. Eles são Fleege (um cachorro com uma irritante língua sempre pendendo para fora), Drooper (um leão de óculos escuros e que segura a cauda enrolada no braço), Bingo (um gorila cor-de-laranja sempre sorridente) e Snorky (um paquiderme peludo com orelhas cheias de bolinhas coloridas). Já é nonsense o suficiente – mas tem mais. Muito mais.

O quarteto é uma – hã – banda de rock. E, curiosamente, uma banda de rock de primeira linha. Com assessoria de nomes como The Monkees, os bichos cantaram temas que continuam embalando gerações. Tente ouvir a canção mais famosa, aquela do refrão "Tra-la-lá, tra-la-la-lá" e fique parado. Impossível!

Quando não estão tocando, os personagens passam o tempo apostando corridas de bugue pelo parque. Agora vamos imaginar a gravação disso: quatro marmanjos vestidos com fantasias espalhafatosas e correndo em carros engraçados em locais públicos. Tinha que ser nos anos 60 mesmo – a galera estava tão chapada que acho que nem se importavam em cruzar com seres daquele tipo.

Além de cantar e correr eles... trombam uns nos outros. O tempo inteiro. Também tropeçam nos móveis do lugar onde moram juntos, uma espécie de galpão psicodélico. Eles têm como amigos uma cabeça de alce falante e um relógio cuco. Como inimigos, a temível gangue das Uvas Azedas – que nunca apareceu, mas mandava bilhetes ameaçadores através de uma garotinha loira chamada Charlie.

Entre as trapalhadas, o programa tinha desenhos. Aliás, uns desenhos que ninguém mais lembra. Talvez aqueles rejeitados pela dupla Hanna-Barbera. Só lembro de alguns, como "Os Três Mosqueteiros" e "Os Cavaleiros da Arábia". Bem, basicamente, era isso que acontecia em todos os episódios do programa durante os dois anos em que alguém teve colhões para deixar aquilo no ar.

Claro que as crianças amavam! Posso falar por mim, que chegava a chorar quando a turma se despedia (sempre com uma canção de pop bubble gum). Apesar de não entender muito como eles falavam sem mexer a boca, achava o máximo todo o colorido e as situações estúpidas. Hoje, vinte anos mais tarde, continuo assistindo a tudo com meu queixo caído e vendo que um pouco de tóchico pode fazer muito bem para certas pessoas.

bananas.jpg
Nonsense para baixinhos


* * * * * *

Se você não puder comparecer dia 26 de junho, sábado, no Pró-Sangue do Hospital da Clínicas de São Paulo - seja por ser de outra cidade, seja por ter compromisso no dia - não quer dizer que você não poderá participar da nossa campanha. Tente ir onde der e quando der - o importante é o gesto. E, para o gesto, não precisa de data marcada.

Vivi Griswold às 09:33 AM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



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