terça-feira, 15 de junho de 2004

Como eles conseguiam?

Lá em casa, sou conhecida como "a mimada". "A caçula", "a queridinha" e "a privilegiada" são variantes dessa pecha. Tudo bem, eu assumo: apesar de ter apanhado quando necessário e levado bronca feito cachorro sarnento algumas vezes, em geral eu era mesmo paparicada pelo papai e pela mamãe. E eles eram especialistas no trabalho.

Meus pais sabiam praticar o mimo. Não apostavam na compra de presentes caros ou festas, mas tinham a manha de ser dengosos em alguns pontos. Eram eventos isolados, coisinhas pequenas e imperceptíveis ao olho nu das demais pessoas. Eu, por outro lado, recordo aqueles momentos todo dia.

Se perguntar, é capaz que nem os próprios lembrem dessas coisas. Na minha memória, porém, elas ficaram marcadas para sempre. As bobaginhas aconteciam entre nós, sem inclusão de mais ninguém. Eu espero saber mimar os meus rebentos com essa habilidade.

A Dona Conceição…

…Usava o secador pra brincar
Nas noites frias (como estas que andam fazendo, brrrrr!), o cabelo tinha que ser lavado e seco na mesma hora, para não dar chance ao resfriado. Enquanto passava o aparelho na minha cabeçona, mamãe achava de direcionar a lufada de ar quente para dentro do meu pijama de surpresa! Causava cócega, gargalhadas e até calor no meio de tanto frio.

…Fervia leite com açúcar nas crises
Se a tática anti-resfriado não dava certo, lá vinha a tosse estorvar a madrugada. Conheço gente que postava os filhos na frente de um aborrecido aparelho de inalação caseira. Não a mamãe: ela acordava, ia na cozinha, preparava uma xícara de leite fervente com açúcar caramelado. Acalmava o pulmão e me deixava feliz. Acho que o "bicho" ia embora por causa do segundo efeito.

…Fazia a cara da cabrita de "A Noviça Rebelde"
Aquela doce mulher é uma das pessoas mais simpaticamente engraçadas que eu conheço. Com a fala mansa e o jeito contido, ninguém imagina a palhaça que ela pode virar! Ver o filme da Frau Maria naquele ponto do teatro de fantoches era de esborrachar de rir. Ela aperta a boca e arregala os olhos e canta como tirolesa… Ah, vai ver é engraçado só entre nós duas.

O Seo Luiz…

…Fazia o "nome do padre" toda noite
Não sou nem um tiquinho religiosa, mas não foi por falta de esforço do papai. Na verdade, ele também não é nenhum beato, mas curtia ir toda noite me botar na cama, apertar o cobertor nos pés e, fazendo o sinal da cruz, dizer "em nome do pai, do filho, do espírito santo" – ao que eu respondia "amém!". Não faço mais orações. Mas é só porque não tenho mais o papai pra puxar o coro.

…Me levava para passear só com ele nos domingos
O ritual incluia acordar bem cedo (como era fácil naquele tempo, coisa estranha…), trocar de roupa e pular no carro. Daí íamos ao mercado municipal comprar fruta ou visitar a Vó Emília. De vez em quando, também havia parada na floricultura para arrematar um buquê pra mamãe. Ou na feira, para mandar ver num pastel. Mamy que me desculpe, mas eu preferia o segundo pit-stop.

…Assistia tv comigo abraçada
Assim como eu, meu velhinho é chapado numa televisão. Sempre fomos de largar a família falando sozinha para ver filme ou jogo na tv. Houve um tempo em que eu ainda era pequenina o suficiente para me aboletar entre os joelhos dele ou encostar a cabeça no barrigão. Foi-se a época… Mas isso não importa. Os momentos estão pregados na memória e de lá não saem.

Fla Wonka às 01:22 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold