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O inverno tem dessas coisas Já confessei que esta, para mim, é a melhor época do ano. Não gosto do calor escaldante no qual temos de viver 70% do tempo neste país tropical. Tudo no verão fica ruim: dormir, por exemplo. Eu, que sou daquelas pessoas que encostam a cabeça do travesseiro e desmaiam, tenho dificuldades de descansar em temperaturas altas. Rolo na cama, não acho posição e, o mais incrível, já acordo suada. No inverno, basta um edredon quentinho para garantir bons sonhos. Mas minha estação favorita também tem seus contratempos mesmo para uma admiradora dos dias mais gelados. Para começar, meu nariz se comporta de um jeito estranho. É só tirar a blusa de lã do armário pela primeira vez em seis meses que a tal rinite alérgica me ataca. Também tenho uma garganta sensível e, nessa época, costumo acordar com dor. Aconteceu isso hoje – estou aqui toda dodói. Mesmo assim, costumo ficar muito animada durante o frio e tento curtir ao máximo esse tempo mágico que visita o Brasil só de vez em quando. E é aí que eu me deparo com as situações mais irritantes do inverno. Repare na inflação exagerada de artigos quentes – cappuccino, cafés e chocolates cremosos ganham acréscimo de um punhado de centavos nos preços. Aliás, tudo o que vai no fogo por minutos fica visivelmente mais caro. Existe uma franquia de café que cobra 10,90 reais por uma sopa. O engraçado é que a sopa deles é a famosa Campbell’s, vendida a 5 reais no supermercado. Curiosamente, eles não fazem a mínima questão de esconder: o moço abre a latinha na sua cara! Ou eles cobram 5,90 reais por 300ml de água (o único ingrediente a mais para o produto ficar pronto), ou esse inverno dói no bolso mesmo. Eu adoro aproveitar os céus azuis da época, e costumo passear muito ao ar livre, desde que bem agasalhada. Isso porque qualquer outra atividade indoors vira uma disputa! Já tentou ir ao cinema no inverno? As filas dobram o quarteirão! Outra coisa que me irrita em cinemas nesta estação: eles esquecem o que é ar-condicionado. Resultado? Quando o calor está de rachar lá fora e você está com uma camisetinha, tome vento gelado; quando está um frio do cão e você está até de gorro, tem de respirar bafo quente dos outros. É óbvio que todo mundo está buscando diversões mais aconchegantes. Domingo passado, com os termômetros da capital marcando 10 graus, inventei de ir em um festival de sopas de uma lanchonete bacana. Pena que a cidade inteira teve a mesma idéia! Aliás, todos os lugares charmosos e quentinhos estão com gente saindo pelo ladrão. Meu ideal de um jantar romântico regado a vinho, ao lado de uma lareira em um canto escuro e solitário de um restaurantezinho vai por água quando só a espera de lugares assim chega a duas horas. O jeito é jantar em casa usando um visu bóia-fria. Por falar em visu bóia-fria... Quem foi que disse que o inverno é a estação mais elegante? Tá certo que durante o frio não somos obrigados a olhar para barriguinhas pelancudas ou para dedões do pé com esmalte descascado, mas... Não é tão elegante assim. Claro que existem madames com sobretudos e blusas de cashmere e cachecóis de seda lá na Oscar Freire. É delas que o povo fala? Porque, de resto, é um deus-nos-acuda. Camiseta por cima de camiseta, japona de náilon colorida, gorro de time de futebol, luva furada (pra quê comprar outra?), calça xadrez com malha de bolinha... Outra coisa que me irrita a cada estação fria são as pautas-clichê dos telejornais. Acho que o pessoal do Jornal Nacional nem precisa mais fazer matérias sobre o inverno – basta pegar as dos anos anteriores e dar um tapa na pós-produção. Pois o conteúdo, que é bom, não muda nunca. Preste atenção e veja se você já viu (se não, vai ver) os seguintes temas: “Populares tiram tudo do armário para vencer o frio” (detalhe para modelitos bóia-fria na Av. Paulista); “Crianças se divertem com geada em São Joaquim” (detalhe para um bando de pivetes lambendo uma neve lamacenta); “O charme e encanto de Campos do Jordão” (detalhe para uma araucária sacudida pelo vento, contra-luz); “Termômetros registram a temperatura mais fria do ano” (detalhe para um termômetro de rua marcando 9 graus à noite). Reclamo, mas gosto. Vivi Griswold às 10:31 AM |
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