segunda-feira, 14 de junho de 2004

Só pivete, sem preconceito

Bom mesmo é ser criança e não dever explicações sobre seus gostos. Se saímos na rua vestidos de Branca de Neve ou Batman, todo mundo sorri e acha uma gracinha. Vá você fazer isso enquanto adulto! Passada a infância, é preciso escolher não só uma linha de estilo para vestimentas, mas também para todo o resto. O que ouvir no rádio, por exemplo: só estarás perdoado de cantar "Florentina" em público se tiveres menos de oito anos...

Nesse caso, entoar os poéticos versos do Tiririca provoca surtos de riso na família. Ninguém vai deixar de gargalhar vendo moleque ou menininha de bochechas rosadas repetindo "já me disseram pra parar com esse negócio de... Florentina, Florentina/ Florentina de Jesus". Já escutar moça feita ou rapaz crescido proferir a barbaridade musical é um absurdo.

Vou dizer para vocês: eu tenho saudade do tempo em que ninguém estava ligando para o que rolava no meu primeiro Gradiente. E confesso que às vezes, escondida ou no chuveiro, ainda relembro minhas preferências que não causavam espanto em pessoa alguma – por mais bizarras que fossem.

Eu curtia sertanejo raiz e cantava "Galopeira"
Via o Donizetti soltar o gogó com a "galopeeeeeeeeeeeeeeeeeira" e achava um barato! O desafio era sustentar a nota tanto tempo quanto ele. Nem pensar que eu conseguia – e olha que treinava bastante. Ah! Também apreciava, junto com a minha avó, o Sérgio Reis falando do menino da porteira. Ê, tempo bão...

Curtia um sambinha esperto e escutava "Saudosa Maloca"
Não tinha coisa mais divertida que aquela música para sacudir as cadeiras. E para repetir junto "dindindonde nós passemo dias feliz de nossa vida". Quase tão perfeita era uma outra que falava em "tauba de tiro ao álvaro" e "mata mais que bala de revórver". Hilário! Samba é bom.

Curtia eruditos e bailava na cozinha com "As Quatro Estações"
Pode ter sido influência das propagandas do Vinólia, vai saber. Mas era fato: bastava ouvir a melodia do Seo Vivaldi e eu saía dançando na ponta do pé, com as mãos juntas em arco no topo da cabeça. Arriscava até uns saltinhos marotos! Hoje, só faço isso quando não tem gente em casa. E com a cortina da sala fechada.

Curtia um brega safado e me esgoelava com "Escrito nas Estrelas" e "Fuscão Preto"
Tetê Espíndola encantou o Brasil naquele festival onde mostrou o real significado de um agudo. Bom, talvez o país tenha achado um horror (eu sei que a roupa branca de renda era dose mesmo), mas eu achei divertidíssimo. Essa, mais a história de corno do Almir Rogério, ainda me fazem cantar com a mão no coração.

Curtia hits GLS como ninguém
"Macho Man" e "YMCA" eram clássicos das pistas nos anos 70. Também eram medalhões em qualquer festa reunindo os amigos da purpurina e da plataforma. Quando eu era criança, nem fazia idéia que os moços do Village People vestiam-se de índio, policial, caubói e etc, mas não eram lá tão viris quanto os personagens. Era ótimo fazer a coreografia do Macho Man e gritar alto na parte do "Hey, Hey… Hey Hey Hey!". Hoje os moleques do bairro que também dançavam isso nas festinhas de aniversário devem negar o passado de fãs do Village. Era tão boa a vida sem preconceito…

Villagepeople.jpg
Dançar com eles era suuuper natural, bem!
Fla Wonka às 02:16 PM

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No cinema
Pipoca, telona, escurinho e
celular tocando em hora errada.
No dia-a-dia
Fatos bizarros, comentários
inúteis e notas estranhas.
Na estante
Páginas, ilustrações, escritores
e traças, muitas traças.
No passado
Brinquedos, escola, casa
da avó e saudades disso tudo.
No som
Verso, vinil, vitrola, voz
e gente boa ou ruim de rima.
Na TV
Bombril na ponta da antena
e o milagre que vem pelo cabo.



· Clara McFly
· Flá Wonka
· Vivi Griswold