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Pãezinhos e folguedos Apesar de ter santo no sobrenome – e de descobrir recentemente que Viviana também foi uma mártir católica –, nunca fui religiosa. Mamãe, que tem um altar na casa dela com imagens de Jesus, Buda e Krishna, deixou em aberto minhas escolhas espirituais e não me obrigou a fazer primeira comunhão ou a freqüentar missas dominicais. Acabei não dando em nada: nem católica, nem budista, nem atéia. O legal de ser neutra nesse quesito é poder pegar as partes boas de cada religião sem neura ou cobranças – além, claro, de aprender a respeitar a crença alheia, o que é muito importante. A igreja católica, porém, nunca me despertou simpatia por diversos motivos diferentes. Mas se existe algo que eu admiro nela é a habilidade de fazer santos. Seja pela parte histórica, seja pela especificidade levada até as últimas conseqüências, eu adoro um santo. Existem imagens lindas que conseguem despertar algo bacana dentro de mim, sem aquele fanatismo que muitas vezes pode cegar. E o meu santo favorito, junto a São Francisco de Assis, teve seu dia comemorado ontem. Não é pela ação casamenteira que eu acabei nutrindo um carinho especial por Santo Antônio. Esse negócio de pendurar a imagem de cabeça para baixo, arrancar-lhe o menino do colo ou guardá-lo no fundo do armário só para arrumar um par para o próximo Dia dos Namorados é um absurdo – apesar de ser engraçado saber que tem gente que faz isso mesmo. Minha relação por Santo Antônio é estritamente infantil. O moço é padroeiro da cidade em que morava até o ano passado, Osasco. A cada dia 13 de junho, o local pára: é feriado municipal (o que por si só já é uma coisa boa) e, para comemorar, há uma procissão e uma quermesse animada na igreja central. Quando eu era pequena aguardava ansiosamente pela data devido a todas as emoções da festa. Logo de manhã, minha avó ia se estapear com outras beatas para pegar o tal pãozinho bento. Famoso por distribuir alimento aos pobres, Santo Antônio não imaginava que depois de tanto esforço o pão francês ia parar dentro do tupperware de arroz da dona Diva. Ela jogava fora o do ano passado e colocava o novo, dizendo que o tal pão não deixaria faltar alimento em casa. O arroz, pelo menos. À tarde seguíamos pela procissão. Eu ia junto porque achava a maior diversão andar o percurso em passos lentos pela cidade vazia de carros. Também achava graça ver aquele monte de criança vestida de anjo. Minha tia, após perder o bebê na primeira gravidez, prometeu a Santo Antônio freqüentar a romaria caso seu segundo filho “vingasse”. Lucas, a vítima em questão, recebeu também o nome Fernando, como o santo era chamado antes da vida religiosa. Note, portanto, que era um evento familiar. Quando chegávamos à matriz, uma saraivada de fogos de artifício recebia os fiéis. Pronto, a melhor parte! A festa de Santo Antônio conseguia reunir mais folguedos do que o reveillon, e o espetáculo – eu era criança, lembre-se – durava uns bons 20 minutos. Depois, era a hora de encher a pança com os melhores quitutes juninos, como pamonha e pé-de-moleque. Até vinho quente eu tomava. Só voltava para casa depois de arrematar alguma boneca de plástico na pescaria. Um santo que deixava minha avó contente com um mísero pão francês e me dava um céu colorido, comida boa e prendas? Desse é fácil ser devota.
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